
Em linhas gerais, a story line era a seguinte: em certa república sul-americana, um jovem e promissor candidato, de tendência neoliberal, concorre à presidência contra um ex-líder sindical ligado ao movimento operário. Obtém o apoio da elite nacional e, para administrar os polpudos donativos de campanha, convida um velho amigo, o ex-seminarista e vendedor de carros usados antes conhecido como “Paulinho Gasolina”. Depois de uma campanha acirrada – durante a qual afirma que, se o ex-operário vencer, vai “confiscar a poupança do povo” – o jovem e bem-apessoado candidato acaba vencendo por pequena margem de votos. No dia seguinte à posse, o novo presidente e sua ministra da Fazenda anunciam um plano de combate à inflação, em nome do qual bloqueiam o dinheiro depositado em todas as poupanças e contas correntes de todos os bancos do país.
À sombra do palácio do governo se instalaria então uma vasta rede de corrupção e negociatas, na qual projetos só andam se movidos a propina. No instante em que a incredulidade parece dominar a nação, o irmão mais moço de presidente decide, por motivos insondáveis (inveja? Vingança? Revolta pelo suposto assédio que o irmão teria feito a sua bela esposa?), denunciar “Paulinho Gasolina” (que ele mesmo apresentara ao irmão) como chefe da quadrilha que se apoderara dos cofres públicos. A mãe defende o presidente e diz que o filho mais moço é desequilibrado mental e o afasta das empresas da família. Exames médicos provam que o caçula não está louco e as denuncias, depois de averiguadas, desvendam um gigantesco esquema de corrupção que acaba de envolver o presidente, que é afastado do cargo.
Enquanto multidões saem às ruas com a cara pintada exigindo a renuncia, a mãe do presidente entra em coma, a cunhada se torna a “musa do impeachment” e o irmão morre de câncer na cabeça. O ex-tesoureiro foge do país e é preso na Tailândia. O presidente sofre impeachment, mas se livra da prisão. Depois de alguns meses na cadeia, “Paulinho Gasolina”(cuja mulher morrera nesse meio tempo) é solto, mas logo aparece morto, supostamente assassinado pela namorada (ou junto com ela?) que conhecera em visitas intimas na cadeia. No dia do crime o jovem presidente e a esposa (também envolvida em desvios de verbas públicas e com a qual ele se reconciliara depois de tê-la humilhado em público e deixado de usar aliança) estavam em uma ilha do Taiti, vestidos de havaianos e sorrindo para as câmeras.
Para piorar as chances de aprovação em Hollywood, o suposto roteiro é uma obra aberta, ou seja, ainda não tem fim. Quem matou o tesoureiro? Onde estão os (talvez) US$ 2 bilhões roubados? Com que recursos vive o ex-presidente? Quais as cenas dos próximos capítulos? Independente do desfecho e de quais venham a ser as respostas (se é que algum dia elas existirão), a Era Collor se configura como um dos mais negros capítulos da história política do Brasil.
Uma época que seria cômica se não fosse trágica.”

