terça-feira, 12 de abril de 2011

Atividade de Sociologia Primeiro Ano B

Elabore um texto associando a reportagem e as duas charges abaixo. Entrega em aula presencial do dia 09/05.





Povos indígenas de Roraima conquistam vitória histórica

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira (19) pela demarcação contínua da área de 1,7 milhão de hectares da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Dez dos 11 ministros do Supremo votaram pela demarcação contínua da reserva, do modo como já havia sido homologada por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005. Com a decisão, que reforça o artigo 231 da Constituição brasileira, toda a área passará a ser ocupada apenas por grupos indígenas.

Clarissa Pont - Texto publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 20/03/2009


A decisão do STF apenas segue a Constituição que reconhece "aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens" e comprova que retroceder a homologação para área não-contínua representaria um grave precedente jurídico para próximos processos demarcatórios, e poderia estimular grileiros e oportunistas a realizarem invasões nos mesmos moldes dos que ocorrem em Roraima. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceram também 19 condições que servirão de base para as futuras demarcações e para aquelas em andamento.

“Essas condições se aplicam à Raposa Serra do Sol, mas têm um efeito transcendente para as demais demarcações”, afirmou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes. Uma das principais ressalvas foi a vedação à ampliação de terras indígenas já demarcadas, inclusive daquelas que foram reconhecidas antes da Constituição de 1988. “Com isso estamos encerrando um número elevado de controvérsias e talvez alguns impulsos expansionistas”, disse Mendes.

As condições definidas pelo Supremo no julgamento giram em torno de ações como a instalação de bases militares na fronteira, o acesso da Polícia Federal e do Exército à área sem necessidade de autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai), a garantia de acesso de visitantes e pesquisadores ao Parque Nacional do Monte Roraima, a proibição de atividades de caça, pesca e coleta de frutos ou qualquer atividade agropecuária por pessoas estranhas.

Prazo único para retirada de arrozeiros
O ministro Carlos Ayres Britto, relator do processo, espera definir ainda nesta sexta-feira (20) o prazo para o começo da retirada dos fazendeiros da região, seguindo a decisão do Plenário que delegou a ele a responsabilidade para comandar o processo de retirada dos não-índios da área, fixando datas, prazos e a forma como será feita essa retirada.

Britto afirmou que gostaria de conversar primeiro com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e com o presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, desembargador Jirair Aram Meguerian, para se informar da situação no local. “Preciso de um quadro factual, de alguém que me trace o quadro, que faça alguns prognósticos, que me ofereça sugestões”. Segundo Britto, a intenção é que seja dado um prazo único para a retirada de todos os fazendeiros que ainda estejam na área indígena.

Quando definiu que a execução é imediata, explicou o ministro, a Corte quis dizer que não há a necessidade de aguardar a publicação de acórdão do julgamento concluído nesta quinta. Ele salientou, contudo, que a expressão “imediata” não significa que a decisão deva ser cumprida já amanhã. Trata-se, segundo o ministro, de um imediatamente “a curto prazo”, embora Britto diga que ainda não sabe exatamente quando será.

As questões relativas a eventuais indenizações não devem interferir na saída dos fazendeiros da região, disse ainda o ministro. “Esses processos são paralelos, correm na justiça comum e não têm nada a ver com o STF”, explicou. Quanto à existência de plantações na região, que ainda estariam para ser colhidas, o ministro explicou que como a retirada dos fazendeiros foi suspensa por uma liminar, “quem plantou nesse período, plantou por sua conta e risco”.

Indenizações já foram pagas, diz Funai
Segundo o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, os produtores rurais que ainda estão nas terras indígenas já foram indenizados e não têm direito a receber mais dinheiro por benfeitorias feitas depois de 1998. De acordo com Meira, pode ser que ainda haja uma ou outra benfeitoria de boa-fé feita até 1998, ano em que foi publicado no Diário Oficial o ato declaratório da terra indígena. “Após 1998, qualquer benfeitoria feita é de má-fé, porque a terra indígena já estava declarada. Como nós temos 11 anos de pendência judicial, toda e qualquer benfeitoria feita nesse período foi declarada aqui ilegal”, afirmou.

Até agora, já foram pagos cerca de R$ 12 milhões, sendo que aproximadamente R$ 5 milhões foram depositados em juízo, já que alguns produtores não aceitaram os valores oferecidos pela Funai. Meira disse também que deve se reunir com Britto, ainda hoje, para que ele dê as orientações em termos de prazos e procedimentos para a definição do plano de retirada dos não-índios da reserva. “Porque obviamente uma operação dessas precisa de termos uma situação de paz, de segurança, das forças policiais, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança.”

Apesar disso, para Meira, o mais importante é que houve uma grande vitória dos índios. “Em termos de ter sua terra indígena de forma contínua, mostrando que a terra indígena contínua em faixa de fronteira não é um problema para a segurança nacional, que as terras indígenas demarcadas não infligem nenhuma perda, não afetam diretamente o desenvolvimento econômico do estado de Roraima e que isso tudo serve como exemplo para as outras demarcações”, concluiu em entrevista à Agência Brasil.

Julgamento se estende desde agosto do ano passado
O julgamento sobre a reserva Raposa Serra do Sol começou em agosto do ano passado, com o voto de Britto a favor da demarcação contínua. A Constituição de 1988, no artigo 231, reconhece "aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens".
No parágrafo segundo, o texto constitucional estabelece ainda que "as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes".

O Brasil tem atualmente 653 terras indígenas reconhecidas, que abrigam 227 povos, com cerca de 480 mil pessoas. Essas terras representam 12,5% do território nacional. A maior parte das áreas indígenas está nos nove Estados da Amazônia Legal. No caso de Raposa Serra do Sol, cerca de 19 mil índios de cinco etnias vivem na região da reserva agrupados em quase 200 aldeias. Segundo Frei Betto, em artigo publicado na Carta Maior ainda em outubro de 2008, a área “não é apenas uma selva salpicada de tribos. Ali atuam 251 professores indígenas em 113 escolas de ensino fundamental e três de ensino médio. Os indígenas manejam um rebanho de 27 mil cabeças de gado. Funciona dentro da reserva a Escola Agropecuária de Surumu, que profissionaliza técnicos de nível médio. Conveniados com a Funasa, há 438 Agentes Indígenas de Saúde e 100 indígenas técnicos em microscópio, trabalhando em 187 postos de saúde e 62 laboratórios. Valoriza-se a medicina tradicional indígena”.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os perigos da intervenção humanitária na Líbia


E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak e os italianos acolheram Kadafi até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos.

O artigo é de Robert Fisk.

Então, vamos tomar todas as medidas necessárias para proteger os civis líbios, certo? É uma lástima que isso não tenha nos ocorrido nos últimos 42 anos. Ou 41 anos. Ou...bem, vocês sabem o resto. E não dos deixemos enganar sobre o que significa, na verdade, a resolução do Conselho de Segurança da ONU. Uma vez mais, será a mudança de regime. E assim como no Iraque – para usar uma das únicas frases memoráveis de Tom Friedman nesse tempo – quando o último ditador se for, quem sabe que tipo de vampiro sairá do caixão.

E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak (à esquerda na imagem) e os italianos acolheram Kadafi (à direita na imagem) até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos.

Seria por isso, pergunto-me, que não ouvimos Lord Blair falar de Isfahán (central nuclear iraniana)? Sem dúvida deveria estar ali, aplaudindo com júbilo uma nova intervenção humanitária. Talvez só esteja descansando entre um episódio e outro. Ou talvez, como os dragões no “Reino das fadas “, de Spenser, esteja vomitando em silêncio panfletos católicos com todo o entusiasmo de um Kadafi em plena forma.

Abramos a cortina um pouco e observemos a obscuridade que há atrás dela. Sim, Kadafi é um louco absoluto, um lunático do nível de Ahmadinejad do Irã ou Lieberman de Israel, que se pôs a fanfarronear dizendo que Mubarak podia ir para o inferno, mas tremeu de medo quando Mubarak foi de fato lançado nesta direção. E existe um elemento racista nisso tudo.

O Oriente Médio parece produzir estes personagens...em oposição a Europa, que nos últimos cem anos, só produziu Berlusconi, Mussolini, Stálin e aquele baixinho que era cabo na infantaria da reserva do 16° regimento bávaro e que perdeu o juízo quando foi eleito chanceler em 1933...Mas agora estamos voltando a limpar o Oriente Médio e podemos esquecer nosso próprio passado colonial nesta região. E por que não, quando Kadafi diz ao povo de Bengasi: “iremos ruela por ruela, casa por casa, quarto por quarto”. Sem dúvida a intervenção humanitária é uma boa ideia. Além de tudo não haverá tropas em terra.

Desde logo cabe dizer que, se esta revolução fosse reprimida com violência, na, digamos, Mauritânia, não creio que exigiríamos zonas de exclusão aérea. Nem na Costa do Marfim, pensando bem. Nem em nenhum outro lugar da África que não tivesse depósitos de petróleo, gás ou minerais ou carecesse de importância do ponto de vista de nossa proteção a Israel, que é a verdadeira razão pela qual o Egito nos importa tanto.

Enumeremos algumas coisas que poderiam acabar mal. Suponhamos que Kadafi fique em Trípoli e que britânicos, franceses e estadunidenses destruam seus aviões, seus aeroportos, ataquem suas baterias de veículos blindados e mísseis e ele simplesmente não desapareça. Na quinta-feira, observei como, pouco antes da votação na ONU, o Pentágono começava a informar os jornalistas sobre os perigos de toda a operação, precisando que poderia levar dias para instalar uma zona de exclusão aérea.

A truculência e a vilania de Kadafi são reais. Nós as vimos sexta-feira, quando seu ministro do Exterior anunciou o cessar fogo e o fim de todas as operações militares, sabendo perfeitamente que uma força da OTAN decidida à mudança de regime não aceitaria isso, o que permitiria a Kadafi apresentar-se como um líder árabe amante da paz e vítima da agressão do Ocidente: Omar Mujtar vive novamente (chefe do movimento de resistência contra a ocupação militar italiana da Líbia, enforcado em 1931).

E que tal se simplesmente não chegarmos a tempo, se os tanques de Kadafi seguirem avançando. Então, enviaremos mercenários para ajudar os rebeldes? Nos instalaremos em Bengasi, com conselheiros, ONGs e a tradicional retórica diplomática? Note-se como, neste momento crítico, já não falamos das tribos da Líbia, esse curtido povo guerreiro que invocamos com entusiasmo há um par de semanas. Agora falamos da necessidade de proteger o povo da Líbia, já sem falar dos senoussi, o grupo mais poderoso de famílias tribais de Bengasi, cujos homens vêm travando grande parte dos combates. O rei Idris, derrubado por Kadafi em 1969, era senoussi. A bandeira rebelde vermelha, branca e verde – a velha bandeira da líbia pré-revolucionária – é de fato a bandeira de Idris, uma bandeira senoussi.

Agora suponhamos que os rebeldes cheguem a Trípoli (o ponto chave de todo o exercício, não é mesmo?): serão bem recebidos ali? Sim, houve protestos na capital, mas muitos destes valentes manifestantes vinham de Bengasi. O que farão os partidários de Kadafi? Se dispersarão? Se darão conta que sempre odiavam Kadafi e se unirão à revolução? Ou continuarão a guerra civil?

E se os rebeldes entram em Trípoli e decidem que Kadafi e seu filho demente Saif al-Islam devem receber o que merecem, junto com seus capangas? Vamos fechar os olhos para as matanças em represália, os enforcamentos públicos, os tratamentos que os criminosos de Kadafi têm inflingido há anos contra seus opositores. A Líbia não é o Egito. Uma vez mais, Kadafi é um pirado e, dado seu estranho comportamento com seu Livro Verde no balcão de sua casa bombardeada, é provável que, volta e meia, também fique furioso.

Também há o perigo de que as coisas saiam mal do nosso lado: as bombas que caem sobre civis, os aviões da OTAN que podem ser derrubados ou explodidos em território de Kadafi, a súbita suspeita entre os rebeldes, o povo líbio e os manifestantes pela democracia de que a ajuda do Ocidente tem intenções posteriores. E ainda há uma aborrecida regra universal nisso tudo: no segundo em que se empregam as armas contra outro governo, por maior razão que se tenha, as coisas começam a se desencadear. Os mesmos rebeldes que na manhã de quinta expressavam sua fúria ante a diferença de Paris, sacudiam bandeiras francesas à noite em Bengasi. Viva os Estados Unidos. Até que...

Conheço os velhos argumentos. Por pior que tenha sido nossa conduta no passado, que devemos fazer agora? É um pouco tarde para perguntar isso. Amávamos Kadafi quando ele chegou ao poder em 1969. Quando ele mostrou seu um louco, passamos a odiá-lo. Depois voltamos a amá-lo – falo de quando lord Blair apertou suas mãos – e agora o odiamos de novo.

Por acaso Arafat não teve um histórico similar de altos e baixos com os israelenses e estadunidenses? Primeiro era um super-terrorista que desejava destruir Israel. Depois, um super-estadista que apertou a mão de Yitzhak Rabin, e logo em seguida voltou a ser um super-terrorista quando se deu conta que tinha sido enganado sobre o futuro da Palestina.

Algo que podemos fazer é localizar os Kadafi e Saddam do futuro que alimentamos hoje, os futuros dementes sádicos da câmara de torturas que cultivam seus jovens vampiros com nossa ajuda econômica. No Uzbequistão, por exemplo. E no Turquemenistão, no Taquistão, Tchechênia e outros do mesmo estilo. Homens com os quais temos que tratar, que nos venderão petróleo, nos comprarão armas e manterão “na linha” os terroristas muçulmanos.

Tudo é tão conhecido que chega a cansar. E agora estamos de novo envolvidos nisso, dando socos na mesa em unidade espiritual. Não temos muitas opções a menos que queiramos ver outra Srebrenica (NT), não é verdade? Mas um momento: por acaso aquilo não ocorreu muito depois de que impormos nossa zona de exclusão aérea na Bósnia?

(Nota do Tradutor) O Massacre de Srebrenica foi a matança, em julho de 1995 de até 8.373 bósnios, variando em idade de adolescentes a idosos, na região de Srebrenica na Bósnia e Herzegovina pelo Exército Sérvio da Bósnia sob o comando do General Ratko Mladic e com a participação das forças especiais da Sérvia conhecidos como "Escorpiões". Em várias ocasiões foram assassinadas crianças e mulheres. Considerado um dos eventos mais terríveis da história europeia recente, o massacre de Srebrenica é o maior assassinato em massa da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Foi o primeiro caso legalmente reconhecido de genocídio na Europa depois do Holocausto.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quarta-feira, 2 de março de 2011

Atividade Segundo Ano B




O Analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.



Elabore um texto associando as três charges de Angeli ao texto "O Analfabeto Político", de Brecht.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Atividade Segundo Ano A


Atividade 2ºA

Leitura de texto “Patriotismo: entre a realidade e a patriotada, de Enio Squeff”.
Fazer breve resenha em duplas.
ENTREGAR EM FOLHA SEPARADA NO DIA 28/02



O patriotismo: entre a realidade e a patriotada

Enio Squeff (publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 02/09/10.

Em tempos não muito recentes, o Sete de Setembro, Dia da Independência do Brasil, era um feriado de diversão pública, principalmente para as crianças: havia o desfile das tropas com suas bandas reluzentes, os armamentos - tanques de guerra, carros blindados ou mesmo a cavalaria - com cavalo e tudo, como nos filmes de bang-bang - e se imaginava, então, que o Brasil só existia por sua pujança também militar. Era uma ilusão, mas, na época, os militares do exército, da marinha e da aeronáutica andavam fardados pelas ruas. Não havia por que estranhá-los em seus galões: faziam parte da sociedade civil. As coisas só viriam a mudar, com o Golpe Militar que impôs a Ditadura. De um dia para o outro, instaurava-se a desconfiança mútua. De um lado, os paisanos; de outro, os milicos. Numa música censurada, de Chico Buarque de Holanda, o sentido de uma das frases definia a novidade: o regime militar tinha, literalmente, inventado o pecado. E o "patriotismo", principalmente por parte de alguns civis que aderiram ao golpe, passou realmente a cumprir o que dissera séculos antes o inglês Samuel Johnson: seria o último reduto dos canalhas.

Talvez, nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Millôr Fernandes parece ter definido bem as coisas, já ao fim da Ditadura: não havia por que pensar que um militar fosse mais patriota do que um civil, qualquer civil - o trabalhador, pai de família, cidadão simplesmente honesto. O hábito, em suma, não faz o monge. Quase todos os intelectuais, artistas, cientistas, professores ou simples operários nunca pensaram diferente. Quando o Barão do Rio Branco - que era monarquista - perguntou a Dom Pedro II, recém destituído do poder, o que fazer com a emergência da República, o Imperador, numa frase, legou o que se pode considerar uma espécie de lição cívica para o futuro: o Barão que continuasse, com o seu talento, a servir ao seu país ( já era diplomata). Sub-repticiamente, o que o antigo monarca queria dizer era que, acima dos regimes ( e os militares que o depuseram não chegaram a instaurar uma ditadura militar, como fariam depois de 64), o que importava era a "pátria", a pátria brasileira. Mais importante do que o imperador, era o Brasil.

Há um certo pudor em se reivindicar o patriotismo hoje em dia, seja para o que for. Depois de seu quase achincalhe pela Ditadura - que poucas vezes contrariou os Estados Unidos, quando então o que era bom para os americanos, tinha, compulsoriamente de ser ótimo para os brasileiros - o conceito como que passou a sofrer certa sanção pública. Ninguém estranhava, a propósito, no século XVII, a definir o que fazer com o Brasil - que os holandeses julgavam ter como se apoderar - que o Príncipe Maurício de Nassau se reportasse à Holanda, não pelo nome, mas pela expressão "pátria". Era natural que fosse assim: a Holanda lutava por sua independência contra a Espanha e ninguém relevou muito que, séculos mais tarde, a palavra pátria assomasse, não apenas nas considerações de um compositor, como o húngaro Franz Liszt; ou que, tempos depois, tanto Adolf Hitler, quanto Winston Churchil, a invocasse, cada um a seu modo, para se justificar perante seus respectivos países. Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri - para só citar alguns - fizeram música autoproclamada "nacionalista".

Os mexicanos Diego Rivera e Frida Kalo ou os brasileiros Cândido Portinari e Alfredo Volpi, nunca se incomodaram que os definissem a partir da identidade com seus respectivos países. Talvez considerassem um exagero que os adjetivassem como "patriotas", por buscarem o nacional. Mas certamente não julgavam descabido que alguém assacasse eventualmente o termo para elogiá-los. Pelo que ficou de suas obras, eles não se refugiaram em nenhuma consideração "patriótica" para fazerem o que fizeram. Assim também com outros artistas e intelectuais que buscaram uma identidade nacional. No entanto, os militares de 64, no uso constante da palavra "patriotismo" - justificaram muitos atos que eram exatamente o oposto do que talvez se entenda como tal. Ao desmontarem núcleos de inteligência, de tecnologia e de reflexão nas universidades, pela expulsão sistemática de professores e de intelectuais de suas cátedras - muitos artistas, mas principalmente os mais conceituados cientistas - a ditadura militar demonstrou o oposto: o impatriótico que está incutido no "entreguismo" - uma palavra pouco usada hoje em dia, mas que diz bem quando um país se entrega ao comando ( interesses) do outro. E que, até prova em contrário, quase nunca beneficia a nação, o povo, e a comunidade devidamente "apropriada".

O Sete de Setembro já não anima muita gente. Olavo Bilac que se notabilizou por sua obra poética, mas também por ter advogado o serviço militar obrigatório, talvez nunca cogitasse de não ser chamado de patriota - mas quando imaginou que todo o brasileiro, ao atingir a maioridade, devesse se alistar compulsoriamente nas Forças Armadas, tinha como esperança - não de todo fraudada afinal - de que o capiau do interior pudesse sair de sua ignorância ou mesmo de seu analfabetismo, ao se alistar fosse em que Arma fosse.

É estranho como as datas e as palavras evoluem ou se transformam. Na musiquinha infantil que talvez já não se cante nas escolas primárias - aquela que proclama "marcha soldado, cabeça de papel/ se não marchar direito, vai preso no quartel" - há uma estrofe que diz "O quartel pegou fogo, vigia deu sinal/ acode, acode, acode a bandeira nacional"

A bandeira no lugar das vidas ou do próprio prédio do quartel? Exatamente. E assim na canção infantil, como no famoso quadro de Pedro Américo sobre a batalha do Avaí, na Guerra do Paraguai. Na tela imensa, que ocupa uma parede inteira do Museu Nacional de Belas do Rio, os militares de ambos os países, em alguns trechos, lutam menos entre si, do que em torno das respectivas bandeiras.

Nada de ilusões de que não fosse ou não seja assim, evidentemente. Há muito mais de simbolismo nas guerras do que desconfiam nossos corações pacifistas: o soldado russo que invadiu o Reichstag alemão, em Berlim, destruído pelas bombas e que fincou a bandeira soviética no topo cai-não-cai do edifício, sabia que entrava para a história como herói, como protagonista do último capítulo de uma tragédia imensa. O mesmo que aconteceu com a famosa foto dos soldados americanos a erguerem a bandeira americana em Ivo Jima, na guerra vitoriosa contra o Japão: a magnifica fotografia de Joe Rosenthal fez tanto sucesso, que se transformou num dos monumentos mais cultuados dos Estados Unidos - um dos primeiros países, a divulgar que a globalização implicava o fim das identidades nacionais. E que o tal patriotismo não tinha sentido algum(?).

Em ambos os casos, as bandeiras são mais que simbólicas: elas tremulam como parte de uma situação em que o patriotismo, na verdade, é o que mais conta e faz. E isso desde os tempos imemoriais: as legiões romanas tinham seus estandartes - eram eles que os soldados conduziam, como vanguarda simbólica de suas vitórias ( "acode, acode, acode a bandeira nacional"). Caso emblemático, a propósito, se dará nos primórdios da revolução francesa de 1789: acossado pelos monarquistas da Vendéia ( província da França que resistiu à implantação da Primeira República), um menino, de nome Barra, com não mais de 13 anos, entre render-se e entregar a bandeira da República, preferiu defendê-la: morreu trespassado, literalmente fincado ao pano que ele ousou resguardar, enrolando-o ao redor do próprio corpo. Naturalmente, virou herói nacional, cantado em prosa e verso como o primeiro patriota, digno do nome, a morrer como mártir da Primeira República francesa.

Talvez, enfim, a palavra patriotismo tenha vez, quando seu significado não implique discriminações: a ninguém é dado ser mais patriota por atender ao chamamento do clarim, ou ao apito de uma "fábrica de tecidos"(como reclamava da amada operária os versos de Noel Rosa). Mesmo assim, a expressão é repleta de ambigüidades: para muitos, que julgam ter sido lamentável que os holandeses não nos tivessem dominado a partir das invasões de Pernambuco no século XVII- Calabar não foi um traidor. Aliás, ao se ler os relatos da sua execução, por ter sido colaborador dos holandeses, surpreende a sua altivez. Não morreu a implorar perdão. Comportou-se como um valente, ou antes, como um patriota às avessas. Já, para os holandeses, foi mesmo um patriota, um colaborador de imensa valia.

Deve haver muito para se celebrar no Sete de Setembro. Quanto menos que a data não pertence a grupo algum da sociedade civil: constituímo-nos, como país, a partir do chamado "Grito do Ipiranga" no tal dia de 1822. Celebrá-lo, não deixa mesmo de ser uma questão de patriotismo. Que pode, entretanto, a seu turno, ser uma simples patriotada, a depender do lado em que se está. Nos anos 60, houve um jogo, em Porto Alegre, entre o Grêmio e uma seleção da então União Soviética. Como se tratava de um evento entre equipes de duas nações, natural que se tocassem os dois hinos, e a Banda da Aeronáutica - um bom conjunto musical para a época - foi contratado para a tarefa. Executado o hino nacional brasileiro, partiu-se, então, para o hino da URSS. Surpresa: os jogadores russos, até então respeitosos, compungidos, começam a rir, sem saírem de forma, em posição de sentido, mas extremamente divertidos. Como se tratava de uma partida com ampla cobertura da TV e do rádio, houve a curiosidade dos jornalistas: quais os motivo das risadas? Teria o conjunto tocado tão mal? Ou algum acorde fora do lugar havia estragado tudo?

Não, sob o ponto de vista musical não acontecera nada demais. É que, a banda, à falta da partitura da União Soviética, tocou o hino anterior à Revolução Bolchevique, ou seja, a "canção patriótica" que saudava o Czar. E que era conhecido da Banda da Aeronáutica; ela se juntava, amiúde, à Orquestra Sinfônica da Porto Alegre na execução da abertura "1812", de Tchaykovsky, quando o referido hino se sobrepunha à "Marselhesa", justamente para celebrar o ano de 1812, na vitória dos russos sobre o franceses de Napoleão Bonaparte.

No mesmo Rio Grande do Sul, aliás, deu-se algo semelhante no jogo recente entre o Internacional e o Chivas, do México. A TV e a imprensa em geral, não deram muita importância ao fato - mas a Banda da Brigada Militar (PM) gaúcha - seguramente o mais hediondo conjunto que toca o Hino Nacional nos jogos do Campeonato Brasileiro - foi responsável por uma das maiores vaias que permeou o jogo inteiro. E se deu justamente durante a execução do hino brasileiro. Uma vez que a banda da PM não tocou nem direito, nem de forma completa o hino mexicano, deu-se que os jogadores do Chivas, resolveram agir conforme o seu patriotismo lhes ditava: abandonaram a posição de sentido e começaram a se exercitar antes que o hino brasileiro fosse literalmente "executado" pela banda da PM gaúcha. O resultado não podia ser outro - entre compungidos, e furiosos - os gaúchos julgaram-se desrespeitados em seu patriotismo de brasileiros. Alguns cantavam, emocionados - patrioticamente; outros, furiosos, também patrioticamente, esganiçavam-se a xingar os mexicanos, que, igualmente, de forma patriótica, acharam de dar o troco que eles julgavam que a Banda gaúcha merecia por desrespeitar o hino de seu país.

Onde o patriotismo? Pensemos no Sete de Setembro: ele merece outras reflexões.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito e os milhares de heróis da Revolução



Texto de Leonardo Sakamoto publicado no dia 12/02/11 no http://blogdosakamoto.uol.com.br/

Após 18 dias de protestos, o ditador egípcio Hosni Mubarak renunciou nesta sexta pondo fim a 30 anos de poder. O país tem importância estratégica. Tem um dos maiores exércitos profissionais da região, possui localização estratégica (entre a África e a Ásia, o Índico e o Mediterrâneo, com o canal de Suez encurtando distâncias), é – até agora – um parceiro importante de Washington, mantendo relações cordiais com Tel-Aviv. A praça Tahrir, no centro do Cairo, que foi o epicentro da revolta popular, entrou em uma festa que rompeu a madrugada e seguiu por este sábado. Afinal de contas, não é todo o dia que o povo consegue derrubar um ditador de forma pacífica.

Os militares assumiram o poder, prometendo uma transição rápida ao governo civil. Como a democracia será consolidada é uma incógnita. Há muitas variáveis envolvidas e a construção de instituições é um processo lento e que demanda confiança dos envolvidos. Esperemos que esse sentimento de união nacional e entendimento seja mantido para fazer frente ao desafio de tirar 40% da população de uma pobreza de menos de R$ 3,50 por dia. Pois foi exatamente a incapacidade de dar respostas econômicas e sociais à essa situação (enquanto levantamentos apontam que os Mubarak amealharam uma fortuna de US$ 40 bi ao longo do período no poder) o estopim que explodiu as ruas das maiores cidades do país.

Apesar de apoiar governos alguns bisonhos até quase o fim para cumprir sua política de Estado, Washington salta fora do barco antes que ele naufrague por completo. No caso da Indonésia, para citar outro exemplo, a então secretária de Estado Madeleine Albright veio a público sugerir que o ditador Suharto deixasse o poder após os protestos terem ganhado as ruas do arquipélago em 1998. Traduzindo: “Mermão, agora é contigo”. Foi o que se repetiu agora. Outro atores, mesma saída.

Escrevi neste espaço, há exatas duas semanas, que a pressão popular levaria os Estados Unidos a retirarem seu apoio. Ontem e hoje já tive a oportunidade de ouvir e ver alguns “especialistas” creditarem a queda de Mubarak a uma decisão do governo Obama, por ter removido o suporte ao regime, como se a própria chancelaria norte-americana não tivesse mudado de posição ao longo dos dias em decorrência do redemunho formado pela população nas ruas do Egito.

Em seu poema Perguntas de um Trabalhador que lê, Bertold Brecht (foto de baixo) pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”

Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos que têm uma conta de twitter, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram reis que derrubaram um ditador, mas os carregadores de pedra. Isso não tem sido o padrão da História, que supervaloriza e mitifica o indivíduo em detrimento ao coletivo quando escrita e passada adiante. Não tiro a importância de pessoas, mas buscamos heróis quando eles, simplesmente, não precisam existir.

Em homenagem ao pessoal da praça Tahrir, posto o poema inteiro do dramaturgo alemão.

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Egito - Um Outro Oriente Médio É Possível?




Um outro Oriente Médio é possível?

Os protestos populares na Tunísia, Egito, Iêmen e Jordânia apresentam uma agenda renovada para o Fórum Social Mundial que inicia de 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário.

Marco Aurélio Weissheimer
Publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 01/02/2011

O Fórum Social Mundial 2011 começa dia 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. O encontro ganhou uma nova agenda com a onda de protestos populares que já atingiu a Tunísia, o Egito, o Iêmen e a Jordânia. O mais significativo de todos, sem dúvida, é o Egito, em função do que o país representa em termos geopolíticos no Oriente Médio. Egito e Arábia Saudita são dois pilares centrais da aliança EUA-Israel na região. Uma mudança de regime político em um desses dois países pode significar um terremoto político.

Washington, Tel Aviv e alguns outros governos árabes sabem disso, obviamente, e estão com as barbas de molho. Na noite desta terça, o presidente dos EUA, Barack Obama, cobrava de seu até aqui aliado egípcio, Hosni Mubarack, o “início imediato da transição” política no país. Vão-se os anéis para assegurar a permanência dos dedos. A velha história. E os EUA temem o pior. Olham para o Egito, a Árabia Saudita, a Jordânia e a Palestina com indisfarçável pânico.

Quem ouve a voz dos milhões de egípcios que perderam o medo da repressão e foram para as ruas sabe que o pior é a manutenção do atual regime, financiado e armado pelos Estados Unidos há décadas. Enérgico na denúncia e na cobrança por democracia quando se trata de países como o Irã – ou na “implantação da democracia” a ferro e fogo, no caso do Iraque -, os EUA silenciam quando se trata das suas ditaduras amigas no Oriente Médio, especialmente no caso do Egito e da Arábia Saudita. Ou silenciavam, ao menos, já que agora foram obrigados a se manifestar.

Desta vez, os malabarismos linguísticos e semânticos não conseguem esconder a natureza do problema. E a natureza do problema no Egito não reside no fundamentalismo islâmico ou nas aspirações sociais e políticas da Irmandade Muçulmana. O problema reside em um regime autoritário e corrupto, apoiado e sustentado pelos EUA, que governa para um pequeno grupo, deixando milhões de pessoas vivendo na pobreza (cerca de 20% da população vive abaixo da linha da pobreza).

A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário. Basta que os líderes ocidentais supostamente defensores da democracia deixem de financiar aqueles que não querem que os povos destes países escolham o seu destino. Deixem a democracia entrar no Oriente Médio. Não é essa a promessa universal do Ocidente? E seja o que Deus quiser. Ou o que Alá quiser!

O povo egípcio não está rua por questões religiosas. Está na rua porque, entre outras coisas, decidiu cobrar as promessas civilizatórias do Ocidente: democracia, liberdade, prosperidade, justiça social. As consequências desses protestos são incertas. Neste exato momento, a turma dos anéis está em campo para tentar salvar os dedos do modelo atual. Mas uma coisa parece definitiva: o povo egípcio perdeu o medo e decidiu mudar os rumos do país. Essa é uma força muito difícil de ser detida e costuma ter um impacto profundo na vida das nações.

Imagens: www.estadao.com.br

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Futebol e História - O Nacionalismo Sérvio



Texto de Walter Maierovitch publicado no blog http://maierovitch.blog.terra.com.br/

Itália x Sérvia. Fundador da torcida organizada do Estrela Vermelha chefiou a limpeza étnica nos Bálcãs. Futebol usado para exibir força ultranacionalista

1. Em 1991, com a independência de Croácia, Bósnia, Macedônia e Eslovênia, colocou-se um fim à antiga Iugoslávia, aquela diversidade de povos e etnias que o general-ditador Tito, pela força, conseguiu manter unida até a sua morte.

Então, a Iugoslávia ficou restrita à Sérvia e Montenegro. E a Sérvia com dois enclaves, Kosovo (com larga maioria albanesa e muçulmana) e Voivodina.

Sob a presidência de Slobodan Milosevic, deu-se início ao sonho de se constituir a chamada Grande Sérvia e teve início a chamada “limpeza étnica”. Esta levou o Tribunal Penal Internacional (TPI) a mandar prender Milosevic, que morreu na prisão, antes da conclusão do seu julgamento por crimes de guerra, genocídios e contra a humanidade.

Para a limpeza étnica, Milosevic chamou o chefe da torcida organizada da esquadra de futebol do Estrela Vermelha de Belgrado, o ultranacionalista Zeliko Raznatovic.

Raznatovic, apelidado Arkan, comandava a violência nos estádios de futebol. Ele fundou a torcida organizada chamada Tigres de Arkan.

Convocado por Milosevic, o sanguinário Arkan organizou uma força paramilitar que, a partir de 1992, iniciou a “depuração étnica”, sinônimo de genocídio.

Os Tigres de Arkan viraram Tigres dos Bálcãs e essa organização paramilitar, que fazia o jogo sujo no lugar do Estado, foi a responsável pelo massacres de milhões de homens, mulheres, idosos e crianças.

Com o acordo de paz de novembro de 1995 (Tratado de Dayton), Arkan caiu na clandestinidade. Dada a condição de “arquivo vivo” e procurado por forças da Nato e serviços secretos ocidentais, Arkan acabou assassinado em 15 de janeiro de 2000, numa suíte de luxo do Hotel Intercontinental de Belgrado.

2. Com a morte de Arkan e o tratado de paz assinado na cidade norte-americana de Dayton, os ultranacionalistas sérvios voltaram à antiga casa, ou seja, à torcida organizada do Estrela Vermelha, que mantém o nome de Tigres de Arkan.

3. Ontem, mais de 2 mil membros da Tigres de Arkan chegaram a Gênova (Itália) com a meta de destruir tudo e mostrar os músculos no estádio Marassi, onde a seleção da Sérvia enfrentaria a da Itália.

A partida durou seis minutos, quando bombas começaram a explodir no gramado e uma bandeira da Albânia (o enclave de Kosovo se declarou independente e a população é formada por albaneses muçulmanos) foi queimada.

Com medo de tragédia, a polícia limitou-se a assistir ao quebra-quebra. Para a polícia italiana, Gênova é sempre lembrada como o local onde ocorreu um furioso ataque policial, quando do encontro do G-8 em 2001, e isso inibe a repressão.

Pano Rápido. Ao entrar em campo, vários jogadores da seleção da Sérvia saudaram os Tigres de Arkan com o braço levantado e a mão a expor os dedos polegar, indicador e médio. Esse é o sinal dos ultranacionalistas, ou seja, alguns jogadores apóiam os ultranacionalistas.

Encapuzados, tatuados e com camisetas com caveiras ou ossos cruzados, os Tigres de Arkan mostraram que estiveram em Gênova para transformar um evento esportivo em palco de exibição da fúria nacionalista, numa Itália que reconheceu a independência de Kosovo.

Wálter Fanganiello Maierovitch

Veja vídeo no Youtube

http://www.youtube.com/watch?v=Zo54gTN3dfY&feature=player_embedded