terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Atividade Segundo Ano A


Atividade 2ºA

Leitura de texto “Patriotismo: entre a realidade e a patriotada, de Enio Squeff”.
Fazer breve resenha em duplas.
ENTREGAR EM FOLHA SEPARADA NO DIA 28/02



O patriotismo: entre a realidade e a patriotada

Enio Squeff (publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 02/09/10.

Em tempos não muito recentes, o Sete de Setembro, Dia da Independência do Brasil, era um feriado de diversão pública, principalmente para as crianças: havia o desfile das tropas com suas bandas reluzentes, os armamentos - tanques de guerra, carros blindados ou mesmo a cavalaria - com cavalo e tudo, como nos filmes de bang-bang - e se imaginava, então, que o Brasil só existia por sua pujança também militar. Era uma ilusão, mas, na época, os militares do exército, da marinha e da aeronáutica andavam fardados pelas ruas. Não havia por que estranhá-los em seus galões: faziam parte da sociedade civil. As coisas só viriam a mudar, com o Golpe Militar que impôs a Ditadura. De um dia para o outro, instaurava-se a desconfiança mútua. De um lado, os paisanos; de outro, os milicos. Numa música censurada, de Chico Buarque de Holanda, o sentido de uma das frases definia a novidade: o regime militar tinha, literalmente, inventado o pecado. E o "patriotismo", principalmente por parte de alguns civis que aderiram ao golpe, passou realmente a cumprir o que dissera séculos antes o inglês Samuel Johnson: seria o último reduto dos canalhas.

Talvez, nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Millôr Fernandes parece ter definido bem as coisas, já ao fim da Ditadura: não havia por que pensar que um militar fosse mais patriota do que um civil, qualquer civil - o trabalhador, pai de família, cidadão simplesmente honesto. O hábito, em suma, não faz o monge. Quase todos os intelectuais, artistas, cientistas, professores ou simples operários nunca pensaram diferente. Quando o Barão do Rio Branco - que era monarquista - perguntou a Dom Pedro II, recém destituído do poder, o que fazer com a emergência da República, o Imperador, numa frase, legou o que se pode considerar uma espécie de lição cívica para o futuro: o Barão que continuasse, com o seu talento, a servir ao seu país ( já era diplomata). Sub-repticiamente, o que o antigo monarca queria dizer era que, acima dos regimes ( e os militares que o depuseram não chegaram a instaurar uma ditadura militar, como fariam depois de 64), o que importava era a "pátria", a pátria brasileira. Mais importante do que o imperador, era o Brasil.

Há um certo pudor em se reivindicar o patriotismo hoje em dia, seja para o que for. Depois de seu quase achincalhe pela Ditadura - que poucas vezes contrariou os Estados Unidos, quando então o que era bom para os americanos, tinha, compulsoriamente de ser ótimo para os brasileiros - o conceito como que passou a sofrer certa sanção pública. Ninguém estranhava, a propósito, no século XVII, a definir o que fazer com o Brasil - que os holandeses julgavam ter como se apoderar - que o Príncipe Maurício de Nassau se reportasse à Holanda, não pelo nome, mas pela expressão "pátria". Era natural que fosse assim: a Holanda lutava por sua independência contra a Espanha e ninguém relevou muito que, séculos mais tarde, a palavra pátria assomasse, não apenas nas considerações de um compositor, como o húngaro Franz Liszt; ou que, tempos depois, tanto Adolf Hitler, quanto Winston Churchil, a invocasse, cada um a seu modo, para se justificar perante seus respectivos países. Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri - para só citar alguns - fizeram música autoproclamada "nacionalista".

Os mexicanos Diego Rivera e Frida Kalo ou os brasileiros Cândido Portinari e Alfredo Volpi, nunca se incomodaram que os definissem a partir da identidade com seus respectivos países. Talvez considerassem um exagero que os adjetivassem como "patriotas", por buscarem o nacional. Mas certamente não julgavam descabido que alguém assacasse eventualmente o termo para elogiá-los. Pelo que ficou de suas obras, eles não se refugiaram em nenhuma consideração "patriótica" para fazerem o que fizeram. Assim também com outros artistas e intelectuais que buscaram uma identidade nacional. No entanto, os militares de 64, no uso constante da palavra "patriotismo" - justificaram muitos atos que eram exatamente o oposto do que talvez se entenda como tal. Ao desmontarem núcleos de inteligência, de tecnologia e de reflexão nas universidades, pela expulsão sistemática de professores e de intelectuais de suas cátedras - muitos artistas, mas principalmente os mais conceituados cientistas - a ditadura militar demonstrou o oposto: o impatriótico que está incutido no "entreguismo" - uma palavra pouco usada hoje em dia, mas que diz bem quando um país se entrega ao comando ( interesses) do outro. E que, até prova em contrário, quase nunca beneficia a nação, o povo, e a comunidade devidamente "apropriada".

O Sete de Setembro já não anima muita gente. Olavo Bilac que se notabilizou por sua obra poética, mas também por ter advogado o serviço militar obrigatório, talvez nunca cogitasse de não ser chamado de patriota - mas quando imaginou que todo o brasileiro, ao atingir a maioridade, devesse se alistar compulsoriamente nas Forças Armadas, tinha como esperança - não de todo fraudada afinal - de que o capiau do interior pudesse sair de sua ignorância ou mesmo de seu analfabetismo, ao se alistar fosse em que Arma fosse.

É estranho como as datas e as palavras evoluem ou se transformam. Na musiquinha infantil que talvez já não se cante nas escolas primárias - aquela que proclama "marcha soldado, cabeça de papel/ se não marchar direito, vai preso no quartel" - há uma estrofe que diz "O quartel pegou fogo, vigia deu sinal/ acode, acode, acode a bandeira nacional"

A bandeira no lugar das vidas ou do próprio prédio do quartel? Exatamente. E assim na canção infantil, como no famoso quadro de Pedro Américo sobre a batalha do Avaí, na Guerra do Paraguai. Na tela imensa, que ocupa uma parede inteira do Museu Nacional de Belas do Rio, os militares de ambos os países, em alguns trechos, lutam menos entre si, do que em torno das respectivas bandeiras.

Nada de ilusões de que não fosse ou não seja assim, evidentemente. Há muito mais de simbolismo nas guerras do que desconfiam nossos corações pacifistas: o soldado russo que invadiu o Reichstag alemão, em Berlim, destruído pelas bombas e que fincou a bandeira soviética no topo cai-não-cai do edifício, sabia que entrava para a história como herói, como protagonista do último capítulo de uma tragédia imensa. O mesmo que aconteceu com a famosa foto dos soldados americanos a erguerem a bandeira americana em Ivo Jima, na guerra vitoriosa contra o Japão: a magnifica fotografia de Joe Rosenthal fez tanto sucesso, que se transformou num dos monumentos mais cultuados dos Estados Unidos - um dos primeiros países, a divulgar que a globalização implicava o fim das identidades nacionais. E que o tal patriotismo não tinha sentido algum(?).

Em ambos os casos, as bandeiras são mais que simbólicas: elas tremulam como parte de uma situação em que o patriotismo, na verdade, é o que mais conta e faz. E isso desde os tempos imemoriais: as legiões romanas tinham seus estandartes - eram eles que os soldados conduziam, como vanguarda simbólica de suas vitórias ( "acode, acode, acode a bandeira nacional"). Caso emblemático, a propósito, se dará nos primórdios da revolução francesa de 1789: acossado pelos monarquistas da Vendéia ( província da França que resistiu à implantação da Primeira República), um menino, de nome Barra, com não mais de 13 anos, entre render-se e entregar a bandeira da República, preferiu defendê-la: morreu trespassado, literalmente fincado ao pano que ele ousou resguardar, enrolando-o ao redor do próprio corpo. Naturalmente, virou herói nacional, cantado em prosa e verso como o primeiro patriota, digno do nome, a morrer como mártir da Primeira República francesa.

Talvez, enfim, a palavra patriotismo tenha vez, quando seu significado não implique discriminações: a ninguém é dado ser mais patriota por atender ao chamamento do clarim, ou ao apito de uma "fábrica de tecidos"(como reclamava da amada operária os versos de Noel Rosa). Mesmo assim, a expressão é repleta de ambigüidades: para muitos, que julgam ter sido lamentável que os holandeses não nos tivessem dominado a partir das invasões de Pernambuco no século XVII- Calabar não foi um traidor. Aliás, ao se ler os relatos da sua execução, por ter sido colaborador dos holandeses, surpreende a sua altivez. Não morreu a implorar perdão. Comportou-se como um valente, ou antes, como um patriota às avessas. Já, para os holandeses, foi mesmo um patriota, um colaborador de imensa valia.

Deve haver muito para se celebrar no Sete de Setembro. Quanto menos que a data não pertence a grupo algum da sociedade civil: constituímo-nos, como país, a partir do chamado "Grito do Ipiranga" no tal dia de 1822. Celebrá-lo, não deixa mesmo de ser uma questão de patriotismo. Que pode, entretanto, a seu turno, ser uma simples patriotada, a depender do lado em que se está. Nos anos 60, houve um jogo, em Porto Alegre, entre o Grêmio e uma seleção da então União Soviética. Como se tratava de um evento entre equipes de duas nações, natural que se tocassem os dois hinos, e a Banda da Aeronáutica - um bom conjunto musical para a época - foi contratado para a tarefa. Executado o hino nacional brasileiro, partiu-se, então, para o hino da URSS. Surpresa: os jogadores russos, até então respeitosos, compungidos, começam a rir, sem saírem de forma, em posição de sentido, mas extremamente divertidos. Como se tratava de uma partida com ampla cobertura da TV e do rádio, houve a curiosidade dos jornalistas: quais os motivo das risadas? Teria o conjunto tocado tão mal? Ou algum acorde fora do lugar havia estragado tudo?

Não, sob o ponto de vista musical não acontecera nada demais. É que, a banda, à falta da partitura da União Soviética, tocou o hino anterior à Revolução Bolchevique, ou seja, a "canção patriótica" que saudava o Czar. E que era conhecido da Banda da Aeronáutica; ela se juntava, amiúde, à Orquestra Sinfônica da Porto Alegre na execução da abertura "1812", de Tchaykovsky, quando o referido hino se sobrepunha à "Marselhesa", justamente para celebrar o ano de 1812, na vitória dos russos sobre o franceses de Napoleão Bonaparte.

No mesmo Rio Grande do Sul, aliás, deu-se algo semelhante no jogo recente entre o Internacional e o Chivas, do México. A TV e a imprensa em geral, não deram muita importância ao fato - mas a Banda da Brigada Militar (PM) gaúcha - seguramente o mais hediondo conjunto que toca o Hino Nacional nos jogos do Campeonato Brasileiro - foi responsável por uma das maiores vaias que permeou o jogo inteiro. E se deu justamente durante a execução do hino brasileiro. Uma vez que a banda da PM não tocou nem direito, nem de forma completa o hino mexicano, deu-se que os jogadores do Chivas, resolveram agir conforme o seu patriotismo lhes ditava: abandonaram a posição de sentido e começaram a se exercitar antes que o hino brasileiro fosse literalmente "executado" pela banda da PM gaúcha. O resultado não podia ser outro - entre compungidos, e furiosos - os gaúchos julgaram-se desrespeitados em seu patriotismo de brasileiros. Alguns cantavam, emocionados - patrioticamente; outros, furiosos, também patrioticamente, esganiçavam-se a xingar os mexicanos, que, igualmente, de forma patriótica, acharam de dar o troco que eles julgavam que a Banda gaúcha merecia por desrespeitar o hino de seu país.

Onde o patriotismo? Pensemos no Sete de Setembro: ele merece outras reflexões.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito e os milhares de heróis da Revolução



Texto de Leonardo Sakamoto publicado no dia 12/02/11 no http://blogdosakamoto.uol.com.br/

Após 18 dias de protestos, o ditador egípcio Hosni Mubarak renunciou nesta sexta pondo fim a 30 anos de poder. O país tem importância estratégica. Tem um dos maiores exércitos profissionais da região, possui localização estratégica (entre a África e a Ásia, o Índico e o Mediterrâneo, com o canal de Suez encurtando distâncias), é – até agora – um parceiro importante de Washington, mantendo relações cordiais com Tel-Aviv. A praça Tahrir, no centro do Cairo, que foi o epicentro da revolta popular, entrou em uma festa que rompeu a madrugada e seguiu por este sábado. Afinal de contas, não é todo o dia que o povo consegue derrubar um ditador de forma pacífica.

Os militares assumiram o poder, prometendo uma transição rápida ao governo civil. Como a democracia será consolidada é uma incógnita. Há muitas variáveis envolvidas e a construção de instituições é um processo lento e que demanda confiança dos envolvidos. Esperemos que esse sentimento de união nacional e entendimento seja mantido para fazer frente ao desafio de tirar 40% da população de uma pobreza de menos de R$ 3,50 por dia. Pois foi exatamente a incapacidade de dar respostas econômicas e sociais à essa situação (enquanto levantamentos apontam que os Mubarak amealharam uma fortuna de US$ 40 bi ao longo do período no poder) o estopim que explodiu as ruas das maiores cidades do país.

Apesar de apoiar governos alguns bisonhos até quase o fim para cumprir sua política de Estado, Washington salta fora do barco antes que ele naufrague por completo. No caso da Indonésia, para citar outro exemplo, a então secretária de Estado Madeleine Albright veio a público sugerir que o ditador Suharto deixasse o poder após os protestos terem ganhado as ruas do arquipélago em 1998. Traduzindo: “Mermão, agora é contigo”. Foi o que se repetiu agora. Outro atores, mesma saída.

Escrevi neste espaço, há exatas duas semanas, que a pressão popular levaria os Estados Unidos a retirarem seu apoio. Ontem e hoje já tive a oportunidade de ouvir e ver alguns “especialistas” creditarem a queda de Mubarak a uma decisão do governo Obama, por ter removido o suporte ao regime, como se a própria chancelaria norte-americana não tivesse mudado de posição ao longo dos dias em decorrência do redemunho formado pela população nas ruas do Egito.

Em seu poema Perguntas de um Trabalhador que lê, Bertold Brecht (foto de baixo) pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”

Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos que têm uma conta de twitter, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram reis que derrubaram um ditador, mas os carregadores de pedra. Isso não tem sido o padrão da História, que supervaloriza e mitifica o indivíduo em detrimento ao coletivo quando escrita e passada adiante. Não tiro a importância de pessoas, mas buscamos heróis quando eles, simplesmente, não precisam existir.

Em homenagem ao pessoal da praça Tahrir, posto o poema inteiro do dramaturgo alemão.

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Egito - Um Outro Oriente Médio É Possível?




Um outro Oriente Médio é possível?

Os protestos populares na Tunísia, Egito, Iêmen e Jordânia apresentam uma agenda renovada para o Fórum Social Mundial que inicia de 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário.

Marco Aurélio Weissheimer
Publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 01/02/2011

O Fórum Social Mundial 2011 começa dia 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. O encontro ganhou uma nova agenda com a onda de protestos populares que já atingiu a Tunísia, o Egito, o Iêmen e a Jordânia. O mais significativo de todos, sem dúvida, é o Egito, em função do que o país representa em termos geopolíticos no Oriente Médio. Egito e Arábia Saudita são dois pilares centrais da aliança EUA-Israel na região. Uma mudança de regime político em um desses dois países pode significar um terremoto político.

Washington, Tel Aviv e alguns outros governos árabes sabem disso, obviamente, e estão com as barbas de molho. Na noite desta terça, o presidente dos EUA, Barack Obama, cobrava de seu até aqui aliado egípcio, Hosni Mubarack, o “início imediato da transição” política no país. Vão-se os anéis para assegurar a permanência dos dedos. A velha história. E os EUA temem o pior. Olham para o Egito, a Árabia Saudita, a Jordânia e a Palestina com indisfarçável pânico.

Quem ouve a voz dos milhões de egípcios que perderam o medo da repressão e foram para as ruas sabe que o pior é a manutenção do atual regime, financiado e armado pelos Estados Unidos há décadas. Enérgico na denúncia e na cobrança por democracia quando se trata de países como o Irã – ou na “implantação da democracia” a ferro e fogo, no caso do Iraque -, os EUA silenciam quando se trata das suas ditaduras amigas no Oriente Médio, especialmente no caso do Egito e da Arábia Saudita. Ou silenciavam, ao menos, já que agora foram obrigados a se manifestar.

Desta vez, os malabarismos linguísticos e semânticos não conseguem esconder a natureza do problema. E a natureza do problema no Egito não reside no fundamentalismo islâmico ou nas aspirações sociais e políticas da Irmandade Muçulmana. O problema reside em um regime autoritário e corrupto, apoiado e sustentado pelos EUA, que governa para um pequeno grupo, deixando milhões de pessoas vivendo na pobreza (cerca de 20% da população vive abaixo da linha da pobreza).

A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário. Basta que os líderes ocidentais supostamente defensores da democracia deixem de financiar aqueles que não querem que os povos destes países escolham o seu destino. Deixem a democracia entrar no Oriente Médio. Não é essa a promessa universal do Ocidente? E seja o que Deus quiser. Ou o que Alá quiser!

O povo egípcio não está rua por questões religiosas. Está na rua porque, entre outras coisas, decidiu cobrar as promessas civilizatórias do Ocidente: democracia, liberdade, prosperidade, justiça social. As consequências desses protestos são incertas. Neste exato momento, a turma dos anéis está em campo para tentar salvar os dedos do modelo atual. Mas uma coisa parece definitiva: o povo egípcio perdeu o medo e decidiu mudar os rumos do país. Essa é uma força muito difícil de ser detida e costuma ter um impacto profundo na vida das nações.

Imagens: www.estadao.com.br