terça-feira, 1 de novembro de 2011

Malditos comunistas!


Malditos comunistas!

Em Cuba, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado. Pô, assim não vale! Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza. Quero ver é fazer que nem a gente, no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!

Texto de José Roberto Torero publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 01/11/2011.

Acabaram os jogos Pan-Americanos e mais uma vez ficamos atrás de Cuba.

Mais uma vez!

Isso não está certo. Este paiseco tem apenas 11 milhões de habitantes e o nosso tem 192 milhões. Só a Grande São Paulo já tem mais gente que aquela ilhota.

Quanto à renda per capita, também ganhamos fácil. A deles foi de reles 4,1 mil dólares em 2006. A nossa: 10,2 mil dólares.

Pô, se possuímos 17 vezes mais gente do que eles e nossa renda per capita é quase 2,5 vezes maior, temos que ganhar 40 vezes mais medalhas que aqueles comunas.

Mas neste Pan eles ganharam 58 ouros e nós, apenas 48.

Alguma coisa está errada. Como eles podem ganhar do Brasil, o gigante da América do Sul, a sétima maior economia do mundo?

Já sei! É tudo para fazer propaganda comunista.

A prova é que, em 1959, ano da revolução, Cuba ficou apenas em oitavo lugar no Pan de Chicago. Doze anos depois, no Pan de Cáli, já estava em segundo lugar. Daí em diante, nunca caiu para terceiro. Nos jogos de Havana, em 1991, conseguiu até ficar em primeiro lugar, ganhando dos EUA por 140 a 130 medalhas de ouro.

Sim, é para fazer propaganda do comunismo que os cubanos se esforçam tanto no esporte. E também na saúde (eles têm um médico para cada 169 habitantes, enquanto o Brasil tem um para cada 600) e na educação (a taxa de alfabetização deles é de 99,8%). Além disso, o Índice de Desenvolvimento Humano de Cuba é 0,863, enquanto o nosso é 0,813.

Tudo para fazer propaganda comunista!

Aliás, eles têm nada menos do que trinta mil propagandistas vermelhos na cultura esportiva. Ou professores de educação física, se você preferir. Isso significa um professor para cada 348 habitantes. E logo haverá mais ainda, porque eles têm oito escolas de Educação Física de nível médio, uma faculdade de cultura física em cada província, um instituto de cultura física a nível nacional e uma Escola Internacional de Educação Física e Desportiva.

Há tantos e tão bons técnicos em Cuba que o país chega a exportar alguns. Nas Olimpíadas de Sydney, por um exemplo, havia 36 treinadores cubanos em equipes estrangeiras.

E existem tantos professores porque a Educação Física é matéria obrigatória dentro do sistema nacional de educação.

Até aí, tudo bem. No Brasil a Educação Física também é obrigatória.

A questão é que, se um cubano mostrar certo gosto pelo esporte, pode, gratuitamente, ir para uma das 87 Academias Desportivas Estaduais, para uma das 17 Escolas de Iniciação Desportiva Escolar (EIDE), para uma das 14 Escolas Superiores de Aperfeiçoamento Atlético (ESPA), e, finalmente, para um dos três Centros de Alto Rendimento.

Ou seja, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado.

Pô, assim não vale!

Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza.

Quero ver é eles ganharem tantas medalhas sendo como nós, um país onde a Educação Física nas escolas é, muitas vezes, apenas o horário do futebol para os meninos e da queimada para as meninas. Quero ver é eles ganharem medalhas com apoio estatal pífio, sem massificar o esporte, sem um aperfeiçoamento crescente e planejado.

Quero ver é fazer que nem a gente, no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!

Malditos comunistas...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Tottenham é aqui


Texto de Laurindo Leal Filho publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 31/08/2011.

Tottenham é aqui

Em Tottenham, bairro ao norte da capital britânica, o orçamento social foi cortado pela sub-prefeitura em 75% provocando o fechamento de 8 dos 13 centros de lazer e atendimento à juventude. Em São Paulo foram fechados 15 centros de referência especializados em receber jovens vindos das ruas.

Laurindo Lalo Leal Filho

Lentes de contato coloridas e alisadores de cabelo estão entre os produtos preferidos das meninas de 9 a 15 anos que percorrem a Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo, entrando nas lojas, pegando esses produtos e saindo sem pagar.

Buscam padrões de beleza convencionalmente estabelecidos e, para isso, arriscam-se a estar sempre às voltas com a polícia. Mas não medem esforços para conseguir celulares cor-de-rosa, casacos coloridos e outros acessórios.

Lembram os recentes saques às lojas de Londres. A intensidade e a violência é muito menor, mas a motivação assemelha-se. Em ambos os casos, a ambição é o consumo de bens identificados com a projeção do status social.

As semelhanças não param aí. Em São Paulo, como em Londres, os serviços públicos de apoio e assistência aos jovens estão sendo dizimados pela política do “Estado mínimo”.

Em Tottenham, bairro ao norte da capital britânica, o orçamento social foi cortado pela sub-prefeitura em 75% provocando o fechamento de 8 dos 13 centros de lazer e atendimento à juventude (1).

Em São Paulo foram fechados 15 centros de referência especializados em receber jovens vindos das ruas (2). Sem falar no amplo déficit de equipamentos públicos de lazer, cultura e esportes existente na cidade.

A questão como se vê é global. Combina o desmonte neoliberal do Estado com a massificação e a homogeneização dos padrões de consumo. Não é um fenômeno recente. Ele vem sendo fermentado há algumas décadas. Recentes são as reações aqui exemplificadas.

A combinação é perversa. De um lado, retiram-se as oportunidades de lazer, educação e emprego de amplos setores da juventude e, de outro, nivelam-se para toda a sociedade os mesmos padrões sedutores de consumo. Como se a possibilidade de acesso a esses bens fosse igualitária.

Em artigo publicado bem antes dos distúrbios em Londres, o historiador britânico Timothy Clark já chamava a atenção para uma “assustadora realidade” representada no fato de que “nunca antes os miseráveis da terra existiram em tal situação híbrida de perplexidade e fúria, com as imagens de consumidores satisfeitos despejadas todas as noites pela televisão à platéia de seus novos servos endividados, em quartos alugados a preços escorchantes”(3).

No Brasil as imagens de “consumidores satisfeitos” chegam através da TV a 95% dos domicílios, nivelando hábitos e aspirações. A tensão que isso provoca nos menos favorecidos tem sido atenuada nos últimos anos com a melhoria da distribuição de renda em todo o pais.

Fator que em São Paulo tem eficácia diminuída devido às políticas restritivas aos serviços públicos implantadas pelos governos estadual e municipal. Surgem então as meninas vindas das bordas distantes da cidade em busca das lentes de contato coloridas. A Vila Mariana para elas é um parque de diversões.

Nesse aspecto a situação em Tottenham é diferente. Trata-se de um bairro pobre para os padrões britânicos e os revoltosos moram lá mesmo. Quantos não são até vizinhos das lojas atacadas?

Diferença significativa mas não suficiente para apagar os traços comuns de exaltação ao consumo e da impossibilidade de realizá-lo existentes nas duas regiões.

Ao explicar o “fetiche da mercadoria” Marx já apontava como ela, aos olhos do mundo, ganhava vida própria, obscurecendo o valor produzido pelo trabalho nela contido.

As técnicas científicas de propaganda e marketing atuais levaram a fetichização das mercadorias a níveis antes nunca vistos. Não são mais apenas úteis, são amadas, como se vida própria tivessem.

O valor simbólico por elas hoje adquirido é resultado da combinação das técnicas de manipulação da indústria publicitária com a sofisticação cada vez maior dos meios de difusão de sons, imagens, ideais e valores.

A violência dos rebeldes de Londres e a persistência ágil das meninas de São Paulo são o resultado dessa convergência. Sinais do início de um processo cujos desdobramentos são imprevisíveis.

A certeza única é que elas se perpetuarão, na medida em que a necessidade de reprodução acelerada do capital permanecer como o motor central das sociedades modernas (ou pós).

terça-feira, 28 de junho de 2011

O frio dói menos que nossas políticas para moradia


Texto de Leonardo Sakamoto publicado no site http://blogdosakamoto.uol.com.br/ no dia 28/06/2011.

Seu mundo cabia em um carrinho de feira – e ainda sobrava espaço, talvez uma reserva de esperança para os dias que virão. Um casaco o protegia do clima de um dígito que fazia em São Paulo. Ao passar por um montinho de pano que, ao que tudo indica, era uma mulher encolhida pelo frio, tirou seu casaco e a cobriu. Ela sorriu e voltou a dormir. Ele seguiu andando, mais aquecido que antes.

A madrugada de hoje foi a mais fria do ano na capital paulista. Oficialmente, registrou-se 6° C na Avenida Paulista, entre às 2h e às 3h. É claro que a temperatura ou mesmo a sensação térmica foi mais baixa que isso em outros pontos da cidade. Se foi duro para quem estava debaixo de cobertores, imagine então para quem perambulava pelo lado de fora?

Há um ano, numa noite fria, moradores de rua se juntavam na fachada de um prédio lacrado no Centro da capital que, tempos antes, havia recebido uma ocupação de movimentos por moradia. Ontem, a cena se repetia: prédios fechados com tijolos deixavam claro que é mais importante alimentar a especulação imobiliária – além de dar abrigo a ratos e baratas – do que permitir que os sem-teto que rondavam por perto pudessem se proteger do tempo.

O déficit qualitativo e quantitativo de habitação poderia ser drasticamente reduzido se esses imóveis trancados por portas de tijolos pudessem ser desapropriados e destinados gratuitamente para quem precisa. Mas, ao invés disso, o governo federal investe em programas que facilitam o financiamento de novos empreendimentos (“Minha Casa, Minha Dívida”), quando poderiam estar entregando às famílias de baixíssima renda apartamentos existentes que hoje só servem para cultivar pó. Enquanto isso, Estado e município não têm coragem de enfrentar os grandes latifundiários urbanos. Há prédios que devem milhões de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e poderiam ser alvo do Decreto de Interesse Social, uma vez que permanecem vagos por anos. Mas em uma sociedade cuja pedra fundamental são a intocabilidade da propriedade privada e a possibilidade de lucro e não o respeito à vida isso fica difícil.

A área central de São Paulo é alvo prioritário dos movimentos por moradia por uma razão bem simples: porque já tem tudo, transporte, cultura, lazer, proximidade com o trabalho. Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que possuem menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais (com exceção dos condomínios-bolha espalhados no entorno, com suas dinâmicas de segregacionismo próprias).

“Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar / Aqui onde agora está esse edifício alto / Era uma casa velha, um palacete assobradado / Foi aqui, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca / Construímos nossa maloca”. Adoniran Barbosa cantou em seus versos um período da história paulistana em que velhos casarões, tornados cortiços ao longo do tempo, foram demolidos para dar lugar aos altos edifícios de bairros nobres, como Higienópolis. Expulsas, as famílias não tinham para onde ir, e instalavam-se nos extremos da periferia.

A cena se repete ainda hoje, mais vagarosamente que antes. Cortiços em regiões retratadas no passado por Alcântara Machado no livro “Brás, Bexiga e Barra Funda” e também nos antes requintados Campos Elísios abrigam dezenas de famílias. Sem o mínimo de saneamento básico, às vezes sem água e sem luz. Mas, apesar das dificuldades, a maioria dos moradores prefere continuar assim, pois transporte é o que não falta e a casa fica próxima ao trabalho – ao contrário do que acontece em bairros da periferia, onde o trajeto até o centro chega a levar três horas, dentro de ônibus superlotados.

José – o nome é fictício, pois o morador não quis se identificar – morava com a mulher, filhos, cunhado e primos em um velho casarão, semidestruído, então propriedade da Universidade de São Paulo, na Rua Havaí, localizada no caro bairro de Perdizes. O local não possuía a mínima segurança, uma vez que as tábuas caíam ao se caminhar pela casa. Mesmo assim, José não arredava pé de lá. “Se sair não tenho para onde ir.” Passaram-se os meses e a universidade mandou demolir a casa. Para onde foram José e o populacho que lá vivia? Ninguém nunca soube dizer. Provavelmente engrossam a densidade demográfica de outro cortiço. Ou passaram frio em algum lugar precário. Que logo seria igualmente derrubado.

E para quem acha que esse padrão só acontece com moradias, vale lembrar que é a mesma lógica tacanha que faz os mais ricos estudarem em universidades públicas e os mais pobres em particulares.

A recuperação da área central de São Paulo não se restringe a uma valorização estética das ruas, edifícios e bens culturais. Inclui também o repovoamento do local, trazendo vida à região, com incentivos para o estabelecimento das classes média e baixa. O que tem sido feito até agora é o contrário: expulsa-se o povão e ergue-se monumentos à música e às artes. Presto!

Sabe o artigo 6o da Constituição Federal que garante o direito à moradia? Então, é mentira. Do mesmo tamanho daquela anedota contada no artigo 7o que diz que o salário mínimo deve ser suficiente para possibilitar “moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social”.

Função social da propriedade? Por aqui? Faz me rir.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Islândia põe os seus banqueiros na prisão



A Islândia põe os seus banqueiros na prisão

"A primeira vítima da crise financeira constitui-se como uma valente tentativa de pedir responsabilidades". Claudi Pérez (El País - Espanha) conta neste artigo a história da ascensão e da queda da economia islandesa. Nos anos 80, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milionários. A partir daí, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o país converteu-se na quintessência do modelo liberal, com baixos impostos, privatizações e desregulamentações. Taxas de juro à volta de 15% atraíam as poupanças dos dentistas austríacos, dos reformados alemães e dos comerciantes holandeses. Uma economia sã, assentada em sólidas bases, converteu-se numa mesa de cassino.

Claudi Pérez - El País

Procura-se. Homem, 48 anos, 1,80 metros, 114 quilos. Calvo, olhos azuis. A Interpol acompanha esta descrição de uma foto na qual aparece um tipo bem barbeado enfiado num desses ternos escuros de 2000 euros e enfeitado com um impecável nó de gravata. Vê-se à quilômetros que se trata de um banqueiro: este não é um desses cartazes do oeste selvagem. A delinquência mudou muito com a globalização financeira. E contudo esta história tem contornos de western de Sam Peckinpah ambientado para o Ártico. Isto é a Islândia, o lugar onde os bancos vão à ruína e os seus dirigentes podem ir para a cadeia sem que o céu se abata sobre as nossas cabeças; a ilha onde apenas meio milhão de pessoas armadas com perigosas tochas podem derrubar um governo. Isto é a Islândia, o pedaço de gelo e rocha vulcânica que em tempos foi o país mais feliz do mundo (assim, tal como consta) e onde agora os taxistas lançam os mesmos olhares furibundos que em todas as partes quando se lhes pergunta se estão mais chateados com os banqueiros ou com os políticos. Enfim, Isto é a Islândia: paraíso sobrenatural, reza o cartaz que se avista do avião, mesmo antes de desembarcar.

O tipo da foto chama-se Sigurdur Einarsson. Era o presidente executivo dum dos grandes bancos da Islândia e o mais temerário de todos, Kaupthing (literalmente, "a praça do mercado"; os islandeses têm um estranho sentido de humor, para além duma língua milenar e impenetrável). Einarsson já não está na lista da Interpol. Foi detido há uns dias na sua mansão de Londres. E é um dos protagonistas do livro mais lido na Islândia: nove volumes e 2400 páginas para uma espécie de saga delirante sobre os desmandes que a indústria financeira pode chegar a perpetrar quando está totalmente fora de controle.

Nove volumes: praticamente episódios nacionais em que se demonstra que nada disso foi um acidente. A Islândia foi saqueada por cerca de 20 ou 30 pessoas. Uma dezena de banqueiros, uns poucos empresários e um punhado de políticos formaram um grupo selvagem que levou o país inteiro à ruína: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluindo os dois líderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empréstimos pessoais concedidos por um valor de quase 10 milhões de euros por cabeça. Está por demonstrar que isso seja delito (embora pareça que parte desse dinheiro servia para comprar ações dos próprios bancos: para fazer inchar as cotações), mas pelo menos é um escândalo enorme.

A Islândia é uma exceção, uma singularidade; uma raridade. E não só por deixar os seus bancos ir à falência e perseguir os banqueiros. A ilha é uma paisagem lunar com apenas 320 000 habitantes a meio caminho entre a Europa, os EUA e o círculo polar, com um clima e uma geografia extremos, com uma das tradições democráticas mais antigas da Europa e, último tópico, com uma gente de indomável caráter e uma forma de ser e fazer das mais peculiares. Um lugar onde um desses taxistas furibundos, depois de deixar para trás a capital, Reikjavik, se mete por uma língua de terra rodeada de água e deixa o jornalista ao pé da distinta residência presidencial, com o mesmíssimo presidente esperando na soleira da porta: qualquer um pode aproximar-se sem problemas, não há medidas de segurança, nem sequer um polícia. Só o pormenor exótico duma enorme pele de urso polar no alto duma escadaria tira do pasmo quem numa primeira entrevista com um presidente dum país dá com um mandatário - Ólagur Grímsson, que considera "uma loucura" que os seus concidadãos "tenham de pagar a fatura da banca sem serem consultados".

E do presidente ao cidadão de pé-no-chão: da particularidade à categoria. Arnar Arinbjarnarsson é capaz de resumir o apocalipse da Islândia com surpreendente impavidez, à frente dum fumegante capuchino no central Café Paris, a dois passos do Althing, o Parlamento. Arnar tem 33 anos e estudou engenharia na universidade, mas, ao acabar nem sequer lhe passou pela cabeça desenhar pontes: um dos bancos contratou-o, apesar de não ter formação financeira. "A banca estava experimentando um crescimento explosivo, e para um engenheiro é relativamente simples aprender matemática financeira, sobretudo se o ordenado for estratosférico", alega.

A Islândia costumava ser o país mais pobre da Europa nos princípios do século XX. Nos anos oitenta, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milionários. A partir daí, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o país converteu-se na quintessência do modelo liberal, com uma política económica de baixos impostos, privatizações, desregulamentações e além do mais: a sombra de Milton Friedman, que viajou durante essa época para Reikiavik, é alargada. Aquilo funcionou. O rendimento per capita situou-se entre os mais altos do mundo, o desemprego estabilizou em 1% e o país investiu em energia verde, unidades industriais de alumínio e tecnologia. O ápice deu-se com o novo século: o Estado privatizou a banca e os banqueiros iniciaram uma corrida desaforada pela expansão dentro e fora do país, ajudados pelas mãos deixadas livres com a falta de regulamentação e com taxas de juro à volta de 15% que atraíam as poupanças dos dentistas austríacos, dos reformados alemães e dos comerciantes holandeses. Uma economia sã, assente em sólidas bases, converteu-se numa mesa de black jack. Nem sequer faltou uma campanha nacionalista a favor da supremacia racial da casta empresarial, o que talvez demonstre como é perigoso meter esse tipo de bobagens na cabeça das pessoas, seja "as casas nunca baixam de preço" ou "os islandeses controlam melhor o risco pelo seu passado viking".

A festa descontrolou-se: os ativos dos bancos chegaram a multiplicar o PIB por 12. Apenas a Irlanda, outro exemplo de modelo liberal, se aproxima dessas cifras. Até que da noite para o dia - com o colapso da Lehman Brothers e o estouro financeiro mundial - tudo se desmoronou, no que foi "o choque mais brutal e fulminante da crise internacional", assegura Jon Danielsson, da London School of Economics.

Mas voltemos a Arnar e ao seu relato: "a banca começou a desbaratar dinheiro em farras com champanhe e estrelas de rock; comprou ou ajudou a comprar meia Oxford Street, vários clubes de futebol da liga inglesa, bancos na Dinamarca, empresas por toda a Escandinávia: tudo o que estivesse à venda e tudo a crédito". Os executivos concediam créditos milionários a si mesmos, a familiares, a amigos e aos políticos próximos, frequentemente sem garantias. A Bolsa multiplicou o seu valor por nove entre 2003 e 2007. Os preços dos andares triplicaram. "Os bancos levantaram um obsceno castelo de cartas que levou tudo à frente", conta Arnar, que conserva o seu emprego, mas com metade do ordenado. Acaba de comprar um barco em parceria com o pai com a intenção de mudar de vida: quer dedicar-se à pesca.

A fábula duma ilha de pescadores que se converteu num país de banqueiros tem uma moral: "Talvez seja a hora de voltar ao começo", reflete o engenheiro. "Talvez todo esse dinheiro e esse talento que a banca absorve quando cresce demasiado não só se converta num foco de instabilidade, como que subtraia recursos a outros sectores e possa chegar a ser nocivo ao impedir que uma economia desenvolva todo o seu potencial", diz o presidente Grímsson.

A magnitude da catástrofe foi espectacular. A inflação descontrolou-se, a coroa veio abaixo, o desemprego cresceu a toda a velocidade, o PIB caiu 15%, os bancos perderam uns 100 mil milhões de dólares (há-de passar muito tempo até haver números definitivos) e os islandeses continuaram a ser ricos, mais ou menos: metade do que eram antes. De quem foi a culpa? Dos bancos e dos banqueiros, naturalmente. Dos seus excessos, daquele forrobodó de crédito, da sua desmedida cobiça. Os bancos são o monstro, a culpa é deles e, de toda a forma, dos políticos que lhes permitiram tudo isso. OK. Não há dúvida. Somente dos bancos?

"O país inteiro viu-se apanhado numa bolha. A banca sentiu um desenvolvimento repentino, coisa que agora vemos como algo estúpido e irresponsável. Mas as pessoas fizeram algo parecido. As regras normais das finanças permaneceram suspensas e entramos na era do vale tudo: duas casas, três casas por família, um Range Rover, uma moto de neve. Os salários subiam, a riqueza parecia sair do nada, os cartões de crédito faziam fumaça", explica Ásgeir Jonsson, ex-economista chefe da Kaupthing. O também economista Magnus Skulasson assume que essa loucura coletiva levou um país inteiro a parecer dominado pelos valores de Wall Street, da banca de investimento mais especulativa. "Nós islandeses contribuímos decisivamente para que se passasse o que passou, por permitirmos que o governo e a banca fizessem o que fizeram, mas também participamos dessa combinação de cobiça e estupidez. Os bancos merecem ficar afastados do jogo e nós merecemos uma parte do castigo: mas só uma parte", afirma no restaurante dum hotel central.

Uma coisa salva os islandeses, de alguma maneira os redime de parte desses pecados. No seu incisivo Indignai-vos!, Stephane Hessel descreve como os financeiros na Europa e nos EUA, culpados indiscutíveis da crise, salvaram o buraco e continuam com a sua vida como sempre: voltaram os lucros, os bónus, essas coisas. Em compensação, as suas vítimas não recuperaram o nível de ganhos, e muito menos o emprego. "O poder do dinheiro nunca havia sido tão grande, insolente, egoísta com todos", acusa e, contudo, "os banqueiros mal suportaram as consequências dos seus desaforos", acrescenta no prólogo do livro o escritor José Luis Sampedro.

Assim é: salvo talvez no Ártico. A Islândia fez uma valente tentativa de pedir responsabilidades. "Deixar falir os bancos e dizer aos credores que não vão cobrar tudo o que se lhes deve ajudou a mitigar algumas das consequências das loucuras dos seus banqueiros", assegura por telefone a partir do Texas o economista James K. Galbraith.

Contada assim, a versão islandesa da crise tem um toque romântico. Mas a economia é sempre mais prosaica do que parece. Há quem relate uma historia diferente: "Simplesmente, não havia dinheiro para resgatar os bancos: caso contrário, o Estado tê-los-ia salvado: Chegamos a pedi-lo à Rússia!", critica o cientista político Eirikur Bergmann. "Foi um acidente: não queríamos, mas tivemos de deixá-los falir e agora os políticos tratam de vender essa lenda de que Islândia deu outra resposta".

Seja como for, a crise deixou uma cicatriz enorme que continua bem visível: há controle de capitais, um delicioso eufemismo do que no hemisfério Sul (e mais concretamente na Argentina) costuma chamar-se "corralito". O desemprego continua acima dos 8%, taxas desconhecidas por estes lares. A queda da coroa empobreceu todo o país, exceto as empresas exportadoras. Quatro em cada dez lares endividaram-se em divisas ou com créditos ligados à inflação (parece que, em geral, para comprar segundas residências e carros de luxo), o que deixou um buraco considerável no bolso das pessoas. Depois de deixar falir o sistema bancário, o Estado nacionalizou-o e acabou a injetar montões de dinheiro - o equivalente a uma quarta parte do PIB - para que a banca não deixasse de funcionar e agora começa a reprivatizá-lo: a vida, de algum modo, continua igual.

Tudo isso elevou a dívida pública acima de 100% do PIB e para controlar o déficit os islandeses nem sequer se livraram da maré de austeridade que percorre a Europa desde o Estreito de Gibraltar até à costa da Gronelândia: mais impostos e menos gastos públicos. No final a Islândia teve que pedir um resgate ao FMI e o Fundo aplicou as receitas habituais: elevaram o IRS e o IVA islandeses e criaram novos impostos, e pelo lado dos gastos baixaram os salários e benefícios sociais e estão a fechar escolas; reduziu-se o Estado social. Que é o que costuma suceder quando de repente um país é menos rico do que pensava.

"Andamos uma década para trás", encerra Bergman. E mesmo assim o governo e o FMI asseguram que a Islândia crescerá este ano uns 3%: a queda da coroa permitiu um arranque das exportações, há setores de ponta - como o alumínio - que estão passando por uma crise muito proveitosa, e, ao fim e ao cabo, a Islândia é um país jovem com um nível educacional excelente. Entre a dezena de fontes consultadas para esta reportagem, contudo, não abunda o otimismo. Um dos economistas mais brilhantes da Islândia, Gylfi Zoega, desenha um panorama preocupante: "os bancos ainda não estão operacionais, os balanços das empresas estão prejudicados, o acesso ao mercado de capitais está fechado, o governo mostra uma debilidade alarmante. Não há consenso sobre que lugar a Islândia e a sua economia devem ocupar no mundo. Vamos à deriva... não se engane: nem sequer o colapso dos bancos foi uma opção; não havia alternativa. A Islândia não pode ser modelo de nada".

Há quem duvide inclusivamente de que os banqueiros venham finalmente a dar com os ossos na cadeia: "os executivos foram detidos várias vezes, e depois, postos em liberdade: como tantas outras vezes, isso é mais uma brincadeira com a opinião pública que outra coisa", assegura Jon Danielsson. Hannes Guissurasson, assessor do anterior governo e conhecido pela sua férrea defesa de postulados neoliberais, até traça uma estreita linha entre o delito e algumas das práticas bancárias dos últimos anos. "Muito poucos banqueiros vão parar à prisão, se é que algum vai: a excessiva tomada de riscos infringe que lei?" pergunta-se.

Mas os mitos são os mitos (e um jornalista deve defender a sua reportagem até ao último parágrafo) e a Islândia deixa várias lições fundamentais. Uma: não está claro se deixar falir um banco é um ato reacionário ou libertário, mas o custo, ao menos para Islândia, é surpreendentemente baixo; o PIB da Irlanda (cujo governo garantiu toda a dívida bancária) caiu o mesmo e as suas perspectivas de recuperação são piores. Dois: ter moeda própria não é um mau negócio. Em caso de aflição desvaloriza-se e vitória, vitória que se acabou a história; isso permite sair da crise com exportações, algo que nem a Grécia nem a Irlanda (nem a Espanha) podem fazer.

O último e definitivo ensinamento vem da mão do grupo selvagem que ninguém viu vir: nem as agências de classificação de riscos nem os auditores anteciparam os problemas (ainda que o que uma boa auditoria não descobre, uma boa crise desvela: Pricewaterhousecoopers está acusada de negligência). Mas os problemas estavam aí: a prova é que a imensa maioria dos executivos da banca estão na rua e alguns aguardam julgamento. O nosso Sigurdur Einarsson, o banqueiro mais procurado, tratou de comprar uma mansão em Chelsea, um dos bairros mais exclusivos de Londres, por 12 milhões de euros. A maioria dos banqueiros que tem problemas com a justiça fizeram o mesmo durante os anos do boom, e menos mal que o fizeram: as pessoas apupavam-nos no teatro, atiravam-lhes bolas de neve em plena rua, lançavam bocas nos restaurantes ou deixavam espirituosas pinturas nas casas. Saíram correndo da Islândia. O caso é que Einarsson não teve de sair: vivia na sua estupenda mansão londrina desde 2005. A hipoteca não era problema: Einarsson decidiu alugá-la ao banco enquanto vivia na casa; ao fim e ao cabo, um presidente é um presidente e esse é o tipo de demonstrações de talento financeiro que só trazem surpresas no improvável caso de que a justiça se meta no meio.

A Islândia parece o lugar adequado para que sucedam coisas improváveis: segundo as estatísticas, mais de metade dos islandeses acredita em elfos. No avião de volta percebe-se melhor a publicidade do aeroporto, sobretudo porque as fontes consultadas descartam que, se finalmente há condenação dos banqueiros, o governo islandês vai conceder apenas um indulto. Isto é a Islândia: paraíso sobrenatural. Ai, não que não é!

O 'caso Icesave' (e outras peculiaridades)

O tubarão putrefato é um dos pratos típicos da Islândia, que tem uma noite infindável (não só pelas horas de escuridão), uma das poucas primeiras-ministras do mundo (Johana Sigurdardottir, abertamente lésbica) e um museu do pênis (e isto não é uma brincadeira). A lista de peculiaridades é infindável: é mais fácil entrevistar o presidente da Islândia que o presidente da câmara de Reikjavik, Jon Gnarr, célebre por fazer acordos só com quem tenha visto as quatro temporadas de The Wire. Com a crise, as singularidades alcançaram mesmo o sempre aborrecido setor financeiro: em Londres chegaram a aplicar-lhe métodos antiterroristas.

Landsbanki, um dos três grandes bancos islandeses, abriu uma filial pela Internet com uma conta de poupança a altas taxas de juro, Icesave, que fez furor entre britânicos e holandeses. Quando as coisas começaram a dar errado e o governo britânico detectou que o banco estava a repatriar capitais, aplicou-lhe a lei antiterrorista para congelar os fundos. Esse foi o detonador de toda a crise: provocou a falência em cadeia de toda a banca. E continua a dar tremendas dores de cabeça à Islândia.

A Holanda e o Reino Unido devolveram aos seus cidadãos 100% dos depósitos e agora exigem esse dinheiro: 4 bilhões de euros, um terço do PIB islandês, nada menos. O governo chegou a um acordo para que os cidadãos pagassem em 15 anos e a 5,5% de juro: as pessoas organizaram-se para rejeitar a proposta num referendo, depois do veto do presidente. Assim chegou um segundo pacto, mais vantajoso (juros de 3%, a pagar em 37 anos), e de novo as pessoas decidirão em abril em referendo se pagam ou não pelos desmandes dos seus bancos [o artigo foi escrito antes do referendo de dia 9 de abril, do qual saiu recusado este novo acordo – quase 60% dos islandeses votaram não]. Agni Asgeirsson, ex-executivo que foi despedido da Kaupthing e agora trabalha como engenheiro em Río Tinto, é cortante a esse respeito: "o primeiro acordo era claramente uma fraude. Este é mais discutível. Não queremos pagar, mas isso acrescentaria incerteza legal sobre o futuro do país. Mas interessante é como reagiram as pessoas". Esse é talvez o maior atrativo da resposta islandesa: a parlamentar e ex-magistrada francesa Eva Joly (a quem se atribuiu o início da investigação sobre a banca) assegura que o mais chamativo na Islândia é que num país "que se considerava a si mesmo um milagre neoliberal e onde se tinha perdido gradualmente todo o interesse pela política, agora as pessoas querem ter o destino nas suas próprias mãos".

"Isso sim: a fé nos políticos e nos banqueiros demorará a voltar, antes de muito, muito, tempo", conclui o cônsul de Espanha, Fridrik S. Kristjánsson.

Tradução de Paula Sequeiros (Esquerda.net)


PS: A Interpol emitiu um mandado de busca em nome de Sigurdur Einarsson, presidente executivo de um dos maiores bancos da Islândia, o Kaupthing, que acabou nacionalizado quando da crise de 2008.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Atividade de Sociologia Primeiro Ano B

Elabore um texto associando a reportagem e as duas charges abaixo. Entrega em aula presencial do dia 09/05.





Povos indígenas de Roraima conquistam vitória histórica

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira (19) pela demarcação contínua da área de 1,7 milhão de hectares da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Dez dos 11 ministros do Supremo votaram pela demarcação contínua da reserva, do modo como já havia sido homologada por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005. Com a decisão, que reforça o artigo 231 da Constituição brasileira, toda a área passará a ser ocupada apenas por grupos indígenas.

Clarissa Pont - Texto publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 20/03/2009


A decisão do STF apenas segue a Constituição que reconhece "aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens" e comprova que retroceder a homologação para área não-contínua representaria um grave precedente jurídico para próximos processos demarcatórios, e poderia estimular grileiros e oportunistas a realizarem invasões nos mesmos moldes dos que ocorrem em Roraima. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceram também 19 condições que servirão de base para as futuras demarcações e para aquelas em andamento.

“Essas condições se aplicam à Raposa Serra do Sol, mas têm um efeito transcendente para as demais demarcações”, afirmou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes. Uma das principais ressalvas foi a vedação à ampliação de terras indígenas já demarcadas, inclusive daquelas que foram reconhecidas antes da Constituição de 1988. “Com isso estamos encerrando um número elevado de controvérsias e talvez alguns impulsos expansionistas”, disse Mendes.

As condições definidas pelo Supremo no julgamento giram em torno de ações como a instalação de bases militares na fronteira, o acesso da Polícia Federal e do Exército à área sem necessidade de autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai), a garantia de acesso de visitantes e pesquisadores ao Parque Nacional do Monte Roraima, a proibição de atividades de caça, pesca e coleta de frutos ou qualquer atividade agropecuária por pessoas estranhas.

Prazo único para retirada de arrozeiros
O ministro Carlos Ayres Britto, relator do processo, espera definir ainda nesta sexta-feira (20) o prazo para o começo da retirada dos fazendeiros da região, seguindo a decisão do Plenário que delegou a ele a responsabilidade para comandar o processo de retirada dos não-índios da área, fixando datas, prazos e a forma como será feita essa retirada.

Britto afirmou que gostaria de conversar primeiro com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e com o presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, desembargador Jirair Aram Meguerian, para se informar da situação no local. “Preciso de um quadro factual, de alguém que me trace o quadro, que faça alguns prognósticos, que me ofereça sugestões”. Segundo Britto, a intenção é que seja dado um prazo único para a retirada de todos os fazendeiros que ainda estejam na área indígena.

Quando definiu que a execução é imediata, explicou o ministro, a Corte quis dizer que não há a necessidade de aguardar a publicação de acórdão do julgamento concluído nesta quinta. Ele salientou, contudo, que a expressão “imediata” não significa que a decisão deva ser cumprida já amanhã. Trata-se, segundo o ministro, de um imediatamente “a curto prazo”, embora Britto diga que ainda não sabe exatamente quando será.

As questões relativas a eventuais indenizações não devem interferir na saída dos fazendeiros da região, disse ainda o ministro. “Esses processos são paralelos, correm na justiça comum e não têm nada a ver com o STF”, explicou. Quanto à existência de plantações na região, que ainda estariam para ser colhidas, o ministro explicou que como a retirada dos fazendeiros foi suspensa por uma liminar, “quem plantou nesse período, plantou por sua conta e risco”.

Indenizações já foram pagas, diz Funai
Segundo o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, os produtores rurais que ainda estão nas terras indígenas já foram indenizados e não têm direito a receber mais dinheiro por benfeitorias feitas depois de 1998. De acordo com Meira, pode ser que ainda haja uma ou outra benfeitoria de boa-fé feita até 1998, ano em que foi publicado no Diário Oficial o ato declaratório da terra indígena. “Após 1998, qualquer benfeitoria feita é de má-fé, porque a terra indígena já estava declarada. Como nós temos 11 anos de pendência judicial, toda e qualquer benfeitoria feita nesse período foi declarada aqui ilegal”, afirmou.

Até agora, já foram pagos cerca de R$ 12 milhões, sendo que aproximadamente R$ 5 milhões foram depositados em juízo, já que alguns produtores não aceitaram os valores oferecidos pela Funai. Meira disse também que deve se reunir com Britto, ainda hoje, para que ele dê as orientações em termos de prazos e procedimentos para a definição do plano de retirada dos não-índios da reserva. “Porque obviamente uma operação dessas precisa de termos uma situação de paz, de segurança, das forças policiais, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança.”

Apesar disso, para Meira, o mais importante é que houve uma grande vitória dos índios. “Em termos de ter sua terra indígena de forma contínua, mostrando que a terra indígena contínua em faixa de fronteira não é um problema para a segurança nacional, que as terras indígenas demarcadas não infligem nenhuma perda, não afetam diretamente o desenvolvimento econômico do estado de Roraima e que isso tudo serve como exemplo para as outras demarcações”, concluiu em entrevista à Agência Brasil.

Julgamento se estende desde agosto do ano passado
O julgamento sobre a reserva Raposa Serra do Sol começou em agosto do ano passado, com o voto de Britto a favor da demarcação contínua. A Constituição de 1988, no artigo 231, reconhece "aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens".
No parágrafo segundo, o texto constitucional estabelece ainda que "as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes".

O Brasil tem atualmente 653 terras indígenas reconhecidas, que abrigam 227 povos, com cerca de 480 mil pessoas. Essas terras representam 12,5% do território nacional. A maior parte das áreas indígenas está nos nove Estados da Amazônia Legal. No caso de Raposa Serra do Sol, cerca de 19 mil índios de cinco etnias vivem na região da reserva agrupados em quase 200 aldeias. Segundo Frei Betto, em artigo publicado na Carta Maior ainda em outubro de 2008, a área “não é apenas uma selva salpicada de tribos. Ali atuam 251 professores indígenas em 113 escolas de ensino fundamental e três de ensino médio. Os indígenas manejam um rebanho de 27 mil cabeças de gado. Funciona dentro da reserva a Escola Agropecuária de Surumu, que profissionaliza técnicos de nível médio. Conveniados com a Funasa, há 438 Agentes Indígenas de Saúde e 100 indígenas técnicos em microscópio, trabalhando em 187 postos de saúde e 62 laboratórios. Valoriza-se a medicina tradicional indígena”.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os perigos da intervenção humanitária na Líbia


E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak e os italianos acolheram Kadafi até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos.

O artigo é de Robert Fisk.

Então, vamos tomar todas as medidas necessárias para proteger os civis líbios, certo? É uma lástima que isso não tenha nos ocorrido nos últimos 42 anos. Ou 41 anos. Ou...bem, vocês sabem o resto. E não dos deixemos enganar sobre o que significa, na verdade, a resolução do Conselho de Segurança da ONU. Uma vez mais, será a mudança de regime. E assim como no Iraque – para usar uma das únicas frases memoráveis de Tom Friedman nesse tempo – quando o último ditador se for, quem sabe que tipo de vampiro sairá do caixão.

E depois da Tunísia e do Egito, tinha que ser a Líbia, não é mesmo? Os árabes da África do Norte demandam liberdade, democracia e o fim da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas outra coisa que estas nações têm em comum é que fomos nós, os ocidentais, que alimentamos suas ditaduras década após década. Os franceses se encolheram diante de Ben Ali, os estadunidenses paparicaram Mubarak (à esquerda na imagem) e os italianos acolheram Kadafi (à direita na imagem) até que nosso glorioso líder (Tony Blair) foi ressuscitá-lo entre os mortos políticos.

Seria por isso, pergunto-me, que não ouvimos Lord Blair falar de Isfahán (central nuclear iraniana)? Sem dúvida deveria estar ali, aplaudindo com júbilo uma nova intervenção humanitária. Talvez só esteja descansando entre um episódio e outro. Ou talvez, como os dragões no “Reino das fadas “, de Spenser, esteja vomitando em silêncio panfletos católicos com todo o entusiasmo de um Kadafi em plena forma.

Abramos a cortina um pouco e observemos a obscuridade que há atrás dela. Sim, Kadafi é um louco absoluto, um lunático do nível de Ahmadinejad do Irã ou Lieberman de Israel, que se pôs a fanfarronear dizendo que Mubarak podia ir para o inferno, mas tremeu de medo quando Mubarak foi de fato lançado nesta direção. E existe um elemento racista nisso tudo.

O Oriente Médio parece produzir estes personagens...em oposição a Europa, que nos últimos cem anos, só produziu Berlusconi, Mussolini, Stálin e aquele baixinho que era cabo na infantaria da reserva do 16° regimento bávaro e que perdeu o juízo quando foi eleito chanceler em 1933...Mas agora estamos voltando a limpar o Oriente Médio e podemos esquecer nosso próprio passado colonial nesta região. E por que não, quando Kadafi diz ao povo de Bengasi: “iremos ruela por ruela, casa por casa, quarto por quarto”. Sem dúvida a intervenção humanitária é uma boa ideia. Além de tudo não haverá tropas em terra.

Desde logo cabe dizer que, se esta revolução fosse reprimida com violência, na, digamos, Mauritânia, não creio que exigiríamos zonas de exclusão aérea. Nem na Costa do Marfim, pensando bem. Nem em nenhum outro lugar da África que não tivesse depósitos de petróleo, gás ou minerais ou carecesse de importância do ponto de vista de nossa proteção a Israel, que é a verdadeira razão pela qual o Egito nos importa tanto.

Enumeremos algumas coisas que poderiam acabar mal. Suponhamos que Kadafi fique em Trípoli e que britânicos, franceses e estadunidenses destruam seus aviões, seus aeroportos, ataquem suas baterias de veículos blindados e mísseis e ele simplesmente não desapareça. Na quinta-feira, observei como, pouco antes da votação na ONU, o Pentágono começava a informar os jornalistas sobre os perigos de toda a operação, precisando que poderia levar dias para instalar uma zona de exclusão aérea.

A truculência e a vilania de Kadafi são reais. Nós as vimos sexta-feira, quando seu ministro do Exterior anunciou o cessar fogo e o fim de todas as operações militares, sabendo perfeitamente que uma força da OTAN decidida à mudança de regime não aceitaria isso, o que permitiria a Kadafi apresentar-se como um líder árabe amante da paz e vítima da agressão do Ocidente: Omar Mujtar vive novamente (chefe do movimento de resistência contra a ocupação militar italiana da Líbia, enforcado em 1931).

E que tal se simplesmente não chegarmos a tempo, se os tanques de Kadafi seguirem avançando. Então, enviaremos mercenários para ajudar os rebeldes? Nos instalaremos em Bengasi, com conselheiros, ONGs e a tradicional retórica diplomática? Note-se como, neste momento crítico, já não falamos das tribos da Líbia, esse curtido povo guerreiro que invocamos com entusiasmo há um par de semanas. Agora falamos da necessidade de proteger o povo da Líbia, já sem falar dos senoussi, o grupo mais poderoso de famílias tribais de Bengasi, cujos homens vêm travando grande parte dos combates. O rei Idris, derrubado por Kadafi em 1969, era senoussi. A bandeira rebelde vermelha, branca e verde – a velha bandeira da líbia pré-revolucionária – é de fato a bandeira de Idris, uma bandeira senoussi.

Agora suponhamos que os rebeldes cheguem a Trípoli (o ponto chave de todo o exercício, não é mesmo?): serão bem recebidos ali? Sim, houve protestos na capital, mas muitos destes valentes manifestantes vinham de Bengasi. O que farão os partidários de Kadafi? Se dispersarão? Se darão conta que sempre odiavam Kadafi e se unirão à revolução? Ou continuarão a guerra civil?

E se os rebeldes entram em Trípoli e decidem que Kadafi e seu filho demente Saif al-Islam devem receber o que merecem, junto com seus capangas? Vamos fechar os olhos para as matanças em represália, os enforcamentos públicos, os tratamentos que os criminosos de Kadafi têm inflingido há anos contra seus opositores. A Líbia não é o Egito. Uma vez mais, Kadafi é um pirado e, dado seu estranho comportamento com seu Livro Verde no balcão de sua casa bombardeada, é provável que, volta e meia, também fique furioso.

Também há o perigo de que as coisas saiam mal do nosso lado: as bombas que caem sobre civis, os aviões da OTAN que podem ser derrubados ou explodidos em território de Kadafi, a súbita suspeita entre os rebeldes, o povo líbio e os manifestantes pela democracia de que a ajuda do Ocidente tem intenções posteriores. E ainda há uma aborrecida regra universal nisso tudo: no segundo em que se empregam as armas contra outro governo, por maior razão que se tenha, as coisas começam a se desencadear. Os mesmos rebeldes que na manhã de quinta expressavam sua fúria ante a diferença de Paris, sacudiam bandeiras francesas à noite em Bengasi. Viva os Estados Unidos. Até que...

Conheço os velhos argumentos. Por pior que tenha sido nossa conduta no passado, que devemos fazer agora? É um pouco tarde para perguntar isso. Amávamos Kadafi quando ele chegou ao poder em 1969. Quando ele mostrou seu um louco, passamos a odiá-lo. Depois voltamos a amá-lo – falo de quando lord Blair apertou suas mãos – e agora o odiamos de novo.

Por acaso Arafat não teve um histórico similar de altos e baixos com os israelenses e estadunidenses? Primeiro era um super-terrorista que desejava destruir Israel. Depois, um super-estadista que apertou a mão de Yitzhak Rabin, e logo em seguida voltou a ser um super-terrorista quando se deu conta que tinha sido enganado sobre o futuro da Palestina.

Algo que podemos fazer é localizar os Kadafi e Saddam do futuro que alimentamos hoje, os futuros dementes sádicos da câmara de torturas que cultivam seus jovens vampiros com nossa ajuda econômica. No Uzbequistão, por exemplo. E no Turquemenistão, no Taquistão, Tchechênia e outros do mesmo estilo. Homens com os quais temos que tratar, que nos venderão petróleo, nos comprarão armas e manterão “na linha” os terroristas muçulmanos.

Tudo é tão conhecido que chega a cansar. E agora estamos de novo envolvidos nisso, dando socos na mesa em unidade espiritual. Não temos muitas opções a menos que queiramos ver outra Srebrenica (NT), não é verdade? Mas um momento: por acaso aquilo não ocorreu muito depois de que impormos nossa zona de exclusão aérea na Bósnia?

(Nota do Tradutor) O Massacre de Srebrenica foi a matança, em julho de 1995 de até 8.373 bósnios, variando em idade de adolescentes a idosos, na região de Srebrenica na Bósnia e Herzegovina pelo Exército Sérvio da Bósnia sob o comando do General Ratko Mladic e com a participação das forças especiais da Sérvia conhecidos como "Escorpiões". Em várias ocasiões foram assassinadas crianças e mulheres. Considerado um dos eventos mais terríveis da história europeia recente, o massacre de Srebrenica é o maior assassinato em massa da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Foi o primeiro caso legalmente reconhecido de genocídio na Europa depois do Holocausto.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quarta-feira, 2 de março de 2011

Atividade Segundo Ano B




O Analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.



Elabore um texto associando as três charges de Angeli ao texto "O Analfabeto Político", de Brecht.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Atividade Segundo Ano A


Atividade 2ºA

Leitura de texto “Patriotismo: entre a realidade e a patriotada, de Enio Squeff”.
Fazer breve resenha em duplas.
ENTREGAR EM FOLHA SEPARADA NO DIA 28/02



O patriotismo: entre a realidade e a patriotada

Enio Squeff (publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 02/09/10.

Em tempos não muito recentes, o Sete de Setembro, Dia da Independência do Brasil, era um feriado de diversão pública, principalmente para as crianças: havia o desfile das tropas com suas bandas reluzentes, os armamentos - tanques de guerra, carros blindados ou mesmo a cavalaria - com cavalo e tudo, como nos filmes de bang-bang - e se imaginava, então, que o Brasil só existia por sua pujança também militar. Era uma ilusão, mas, na época, os militares do exército, da marinha e da aeronáutica andavam fardados pelas ruas. Não havia por que estranhá-los em seus galões: faziam parte da sociedade civil. As coisas só viriam a mudar, com o Golpe Militar que impôs a Ditadura. De um dia para o outro, instaurava-se a desconfiança mútua. De um lado, os paisanos; de outro, os milicos. Numa música censurada, de Chico Buarque de Holanda, o sentido de uma das frases definia a novidade: o regime militar tinha, literalmente, inventado o pecado. E o "patriotismo", principalmente por parte de alguns civis que aderiram ao golpe, passou realmente a cumprir o que dissera séculos antes o inglês Samuel Johnson: seria o último reduto dos canalhas.

Talvez, nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Millôr Fernandes parece ter definido bem as coisas, já ao fim da Ditadura: não havia por que pensar que um militar fosse mais patriota do que um civil, qualquer civil - o trabalhador, pai de família, cidadão simplesmente honesto. O hábito, em suma, não faz o monge. Quase todos os intelectuais, artistas, cientistas, professores ou simples operários nunca pensaram diferente. Quando o Barão do Rio Branco - que era monarquista - perguntou a Dom Pedro II, recém destituído do poder, o que fazer com a emergência da República, o Imperador, numa frase, legou o que se pode considerar uma espécie de lição cívica para o futuro: o Barão que continuasse, com o seu talento, a servir ao seu país ( já era diplomata). Sub-repticiamente, o que o antigo monarca queria dizer era que, acima dos regimes ( e os militares que o depuseram não chegaram a instaurar uma ditadura militar, como fariam depois de 64), o que importava era a "pátria", a pátria brasileira. Mais importante do que o imperador, era o Brasil.

Há um certo pudor em se reivindicar o patriotismo hoje em dia, seja para o que for. Depois de seu quase achincalhe pela Ditadura - que poucas vezes contrariou os Estados Unidos, quando então o que era bom para os americanos, tinha, compulsoriamente de ser ótimo para os brasileiros - o conceito como que passou a sofrer certa sanção pública. Ninguém estranhava, a propósito, no século XVII, a definir o que fazer com o Brasil - que os holandeses julgavam ter como se apoderar - que o Príncipe Maurício de Nassau se reportasse à Holanda, não pelo nome, mas pela expressão "pátria". Era natural que fosse assim: a Holanda lutava por sua independência contra a Espanha e ninguém relevou muito que, séculos mais tarde, a palavra pátria assomasse, não apenas nas considerações de um compositor, como o húngaro Franz Liszt; ou que, tempos depois, tanto Adolf Hitler, quanto Winston Churchil, a invocasse, cada um a seu modo, para se justificar perante seus respectivos países. Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri - para só citar alguns - fizeram música autoproclamada "nacionalista".

Os mexicanos Diego Rivera e Frida Kalo ou os brasileiros Cândido Portinari e Alfredo Volpi, nunca se incomodaram que os definissem a partir da identidade com seus respectivos países. Talvez considerassem um exagero que os adjetivassem como "patriotas", por buscarem o nacional. Mas certamente não julgavam descabido que alguém assacasse eventualmente o termo para elogiá-los. Pelo que ficou de suas obras, eles não se refugiaram em nenhuma consideração "patriótica" para fazerem o que fizeram. Assim também com outros artistas e intelectuais que buscaram uma identidade nacional. No entanto, os militares de 64, no uso constante da palavra "patriotismo" - justificaram muitos atos que eram exatamente o oposto do que talvez se entenda como tal. Ao desmontarem núcleos de inteligência, de tecnologia e de reflexão nas universidades, pela expulsão sistemática de professores e de intelectuais de suas cátedras - muitos artistas, mas principalmente os mais conceituados cientistas - a ditadura militar demonstrou o oposto: o impatriótico que está incutido no "entreguismo" - uma palavra pouco usada hoje em dia, mas que diz bem quando um país se entrega ao comando ( interesses) do outro. E que, até prova em contrário, quase nunca beneficia a nação, o povo, e a comunidade devidamente "apropriada".

O Sete de Setembro já não anima muita gente. Olavo Bilac que se notabilizou por sua obra poética, mas também por ter advogado o serviço militar obrigatório, talvez nunca cogitasse de não ser chamado de patriota - mas quando imaginou que todo o brasileiro, ao atingir a maioridade, devesse se alistar compulsoriamente nas Forças Armadas, tinha como esperança - não de todo fraudada afinal - de que o capiau do interior pudesse sair de sua ignorância ou mesmo de seu analfabetismo, ao se alistar fosse em que Arma fosse.

É estranho como as datas e as palavras evoluem ou se transformam. Na musiquinha infantil que talvez já não se cante nas escolas primárias - aquela que proclama "marcha soldado, cabeça de papel/ se não marchar direito, vai preso no quartel" - há uma estrofe que diz "O quartel pegou fogo, vigia deu sinal/ acode, acode, acode a bandeira nacional"

A bandeira no lugar das vidas ou do próprio prédio do quartel? Exatamente. E assim na canção infantil, como no famoso quadro de Pedro Américo sobre a batalha do Avaí, na Guerra do Paraguai. Na tela imensa, que ocupa uma parede inteira do Museu Nacional de Belas do Rio, os militares de ambos os países, em alguns trechos, lutam menos entre si, do que em torno das respectivas bandeiras.

Nada de ilusões de que não fosse ou não seja assim, evidentemente. Há muito mais de simbolismo nas guerras do que desconfiam nossos corações pacifistas: o soldado russo que invadiu o Reichstag alemão, em Berlim, destruído pelas bombas e que fincou a bandeira soviética no topo cai-não-cai do edifício, sabia que entrava para a história como herói, como protagonista do último capítulo de uma tragédia imensa. O mesmo que aconteceu com a famosa foto dos soldados americanos a erguerem a bandeira americana em Ivo Jima, na guerra vitoriosa contra o Japão: a magnifica fotografia de Joe Rosenthal fez tanto sucesso, que se transformou num dos monumentos mais cultuados dos Estados Unidos - um dos primeiros países, a divulgar que a globalização implicava o fim das identidades nacionais. E que o tal patriotismo não tinha sentido algum(?).

Em ambos os casos, as bandeiras são mais que simbólicas: elas tremulam como parte de uma situação em que o patriotismo, na verdade, é o que mais conta e faz. E isso desde os tempos imemoriais: as legiões romanas tinham seus estandartes - eram eles que os soldados conduziam, como vanguarda simbólica de suas vitórias ( "acode, acode, acode a bandeira nacional"). Caso emblemático, a propósito, se dará nos primórdios da revolução francesa de 1789: acossado pelos monarquistas da Vendéia ( província da França que resistiu à implantação da Primeira República), um menino, de nome Barra, com não mais de 13 anos, entre render-se e entregar a bandeira da República, preferiu defendê-la: morreu trespassado, literalmente fincado ao pano que ele ousou resguardar, enrolando-o ao redor do próprio corpo. Naturalmente, virou herói nacional, cantado em prosa e verso como o primeiro patriota, digno do nome, a morrer como mártir da Primeira República francesa.

Talvez, enfim, a palavra patriotismo tenha vez, quando seu significado não implique discriminações: a ninguém é dado ser mais patriota por atender ao chamamento do clarim, ou ao apito de uma "fábrica de tecidos"(como reclamava da amada operária os versos de Noel Rosa). Mesmo assim, a expressão é repleta de ambigüidades: para muitos, que julgam ter sido lamentável que os holandeses não nos tivessem dominado a partir das invasões de Pernambuco no século XVII- Calabar não foi um traidor. Aliás, ao se ler os relatos da sua execução, por ter sido colaborador dos holandeses, surpreende a sua altivez. Não morreu a implorar perdão. Comportou-se como um valente, ou antes, como um patriota às avessas. Já, para os holandeses, foi mesmo um patriota, um colaborador de imensa valia.

Deve haver muito para se celebrar no Sete de Setembro. Quanto menos que a data não pertence a grupo algum da sociedade civil: constituímo-nos, como país, a partir do chamado "Grito do Ipiranga" no tal dia de 1822. Celebrá-lo, não deixa mesmo de ser uma questão de patriotismo. Que pode, entretanto, a seu turno, ser uma simples patriotada, a depender do lado em que se está. Nos anos 60, houve um jogo, em Porto Alegre, entre o Grêmio e uma seleção da então União Soviética. Como se tratava de um evento entre equipes de duas nações, natural que se tocassem os dois hinos, e a Banda da Aeronáutica - um bom conjunto musical para a época - foi contratado para a tarefa. Executado o hino nacional brasileiro, partiu-se, então, para o hino da URSS. Surpresa: os jogadores russos, até então respeitosos, compungidos, começam a rir, sem saírem de forma, em posição de sentido, mas extremamente divertidos. Como se tratava de uma partida com ampla cobertura da TV e do rádio, houve a curiosidade dos jornalistas: quais os motivo das risadas? Teria o conjunto tocado tão mal? Ou algum acorde fora do lugar havia estragado tudo?

Não, sob o ponto de vista musical não acontecera nada demais. É que, a banda, à falta da partitura da União Soviética, tocou o hino anterior à Revolução Bolchevique, ou seja, a "canção patriótica" que saudava o Czar. E que era conhecido da Banda da Aeronáutica; ela se juntava, amiúde, à Orquestra Sinfônica da Porto Alegre na execução da abertura "1812", de Tchaykovsky, quando o referido hino se sobrepunha à "Marselhesa", justamente para celebrar o ano de 1812, na vitória dos russos sobre o franceses de Napoleão Bonaparte.

No mesmo Rio Grande do Sul, aliás, deu-se algo semelhante no jogo recente entre o Internacional e o Chivas, do México. A TV e a imprensa em geral, não deram muita importância ao fato - mas a Banda da Brigada Militar (PM) gaúcha - seguramente o mais hediondo conjunto que toca o Hino Nacional nos jogos do Campeonato Brasileiro - foi responsável por uma das maiores vaias que permeou o jogo inteiro. E se deu justamente durante a execução do hino brasileiro. Uma vez que a banda da PM não tocou nem direito, nem de forma completa o hino mexicano, deu-se que os jogadores do Chivas, resolveram agir conforme o seu patriotismo lhes ditava: abandonaram a posição de sentido e começaram a se exercitar antes que o hino brasileiro fosse literalmente "executado" pela banda da PM gaúcha. O resultado não podia ser outro - entre compungidos, e furiosos - os gaúchos julgaram-se desrespeitados em seu patriotismo de brasileiros. Alguns cantavam, emocionados - patrioticamente; outros, furiosos, também patrioticamente, esganiçavam-se a xingar os mexicanos, que, igualmente, de forma patriótica, acharam de dar o troco que eles julgavam que a Banda gaúcha merecia por desrespeitar o hino de seu país.

Onde o patriotismo? Pensemos no Sete de Setembro: ele merece outras reflexões.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito e os milhares de heróis da Revolução



Texto de Leonardo Sakamoto publicado no dia 12/02/11 no http://blogdosakamoto.uol.com.br/

Após 18 dias de protestos, o ditador egípcio Hosni Mubarak renunciou nesta sexta pondo fim a 30 anos de poder. O país tem importância estratégica. Tem um dos maiores exércitos profissionais da região, possui localização estratégica (entre a África e a Ásia, o Índico e o Mediterrâneo, com o canal de Suez encurtando distâncias), é – até agora – um parceiro importante de Washington, mantendo relações cordiais com Tel-Aviv. A praça Tahrir, no centro do Cairo, que foi o epicentro da revolta popular, entrou em uma festa que rompeu a madrugada e seguiu por este sábado. Afinal de contas, não é todo o dia que o povo consegue derrubar um ditador de forma pacífica.

Os militares assumiram o poder, prometendo uma transição rápida ao governo civil. Como a democracia será consolidada é uma incógnita. Há muitas variáveis envolvidas e a construção de instituições é um processo lento e que demanda confiança dos envolvidos. Esperemos que esse sentimento de união nacional e entendimento seja mantido para fazer frente ao desafio de tirar 40% da população de uma pobreza de menos de R$ 3,50 por dia. Pois foi exatamente a incapacidade de dar respostas econômicas e sociais à essa situação (enquanto levantamentos apontam que os Mubarak amealharam uma fortuna de US$ 40 bi ao longo do período no poder) o estopim que explodiu as ruas das maiores cidades do país.

Apesar de apoiar governos alguns bisonhos até quase o fim para cumprir sua política de Estado, Washington salta fora do barco antes que ele naufrague por completo. No caso da Indonésia, para citar outro exemplo, a então secretária de Estado Madeleine Albright veio a público sugerir que o ditador Suharto deixasse o poder após os protestos terem ganhado as ruas do arquipélago em 1998. Traduzindo: “Mermão, agora é contigo”. Foi o que se repetiu agora. Outro atores, mesma saída.

Escrevi neste espaço, há exatas duas semanas, que a pressão popular levaria os Estados Unidos a retirarem seu apoio. Ontem e hoje já tive a oportunidade de ouvir e ver alguns “especialistas” creditarem a queda de Mubarak a uma decisão do governo Obama, por ter removido o suporte ao regime, como se a própria chancelaria norte-americana não tivesse mudado de posição ao longo dos dias em decorrência do redemunho formado pela população nas ruas do Egito.

Em seu poema Perguntas de um Trabalhador que lê, Bertold Brecht (foto de baixo) pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”

Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos que têm uma conta de twitter, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram reis que derrubaram um ditador, mas os carregadores de pedra. Isso não tem sido o padrão da História, que supervaloriza e mitifica o indivíduo em detrimento ao coletivo quando escrita e passada adiante. Não tiro a importância de pessoas, mas buscamos heróis quando eles, simplesmente, não precisam existir.

Em homenagem ao pessoal da praça Tahrir, posto o poema inteiro do dramaturgo alemão.

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Egito - Um Outro Oriente Médio É Possível?




Um outro Oriente Médio é possível?

Os protestos populares na Tunísia, Egito, Iêmen e Jordânia apresentam uma agenda renovada para o Fórum Social Mundial que inicia de 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário.

Marco Aurélio Weissheimer
Publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 01/02/2011

O Fórum Social Mundial 2011 começa dia 6 de fevereiro em Dakar, Senegal. O encontro ganhou uma nova agenda com a onda de protestos populares que já atingiu a Tunísia, o Egito, o Iêmen e a Jordânia. O mais significativo de todos, sem dúvida, é o Egito, em função do que o país representa em termos geopolíticos no Oriente Médio. Egito e Arábia Saudita são dois pilares centrais da aliança EUA-Israel na região. Uma mudança de regime político em um desses dois países pode significar um terremoto político.

Washington, Tel Aviv e alguns outros governos árabes sabem disso, obviamente, e estão com as barbas de molho. Na noite desta terça, o presidente dos EUA, Barack Obama, cobrava de seu até aqui aliado egípcio, Hosni Mubarack, o “início imediato da transição” política no país. Vão-se os anéis para assegurar a permanência dos dedos. A velha história. E os EUA temem o pior. Olham para o Egito, a Árabia Saudita, a Jordânia e a Palestina com indisfarçável pânico.

Quem ouve a voz dos milhões de egípcios que perderam o medo da repressão e foram para as ruas sabe que o pior é a manutenção do atual regime, financiado e armado pelos Estados Unidos há décadas. Enérgico na denúncia e na cobrança por democracia quando se trata de países como o Irã – ou na “implantação da democracia” a ferro e fogo, no caso do Iraque -, os EUA silenciam quando se trata das suas ditaduras amigas no Oriente Médio, especialmente no caso do Egito e da Arábia Saudita. Ou silenciavam, ao menos, já que agora foram obrigados a se manifestar.

Desta vez, os malabarismos linguísticos e semânticos não conseguem esconder a natureza do problema. E a natureza do problema no Egito não reside no fundamentalismo islâmico ou nas aspirações sociais e políticas da Irmandade Muçulmana. O problema reside em um regime autoritário e corrupto, apoiado e sustentado pelos EUA, que governa para um pequeno grupo, deixando milhões de pessoas vivendo na pobreza (cerca de 20% da população vive abaixo da linha da pobreza).

A aplicação da consigna do FSM aos problemas dessa região coloca a seguinte questão: “Outro Oriente Médio é possível?”. O que está acontecendo no Egito mostra que o castelo das autocracias apoiadas e sustentadas pelos EUA é menos sólido do que parecia. Milhões de jovens, homens e mulheres, estão nas ruas dizendo que é possível, sim. E necessário. Basta que os líderes ocidentais supostamente defensores da democracia deixem de financiar aqueles que não querem que os povos destes países escolham o seu destino. Deixem a democracia entrar no Oriente Médio. Não é essa a promessa universal do Ocidente? E seja o que Deus quiser. Ou o que Alá quiser!

O povo egípcio não está rua por questões religiosas. Está na rua porque, entre outras coisas, decidiu cobrar as promessas civilizatórias do Ocidente: democracia, liberdade, prosperidade, justiça social. As consequências desses protestos são incertas. Neste exato momento, a turma dos anéis está em campo para tentar salvar os dedos do modelo atual. Mas uma coisa parece definitiva: o povo egípcio perdeu o medo e decidiu mudar os rumos do país. Essa é uma força muito difícil de ser detida e costuma ter um impacto profundo na vida das nações.

Imagens: www.estadao.com.br