sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Futebol e História - O Nacionalismo Sérvio



Texto de Walter Maierovitch publicado no blog http://maierovitch.blog.terra.com.br/

Itália x Sérvia. Fundador da torcida organizada do Estrela Vermelha chefiou a limpeza étnica nos Bálcãs. Futebol usado para exibir força ultranacionalista

1. Em 1991, com a independência de Croácia, Bósnia, Macedônia e Eslovênia, colocou-se um fim à antiga Iugoslávia, aquela diversidade de povos e etnias que o general-ditador Tito, pela força, conseguiu manter unida até a sua morte.

Então, a Iugoslávia ficou restrita à Sérvia e Montenegro. E a Sérvia com dois enclaves, Kosovo (com larga maioria albanesa e muçulmana) e Voivodina.

Sob a presidência de Slobodan Milosevic, deu-se início ao sonho de se constituir a chamada Grande Sérvia e teve início a chamada “limpeza étnica”. Esta levou o Tribunal Penal Internacional (TPI) a mandar prender Milosevic, que morreu na prisão, antes da conclusão do seu julgamento por crimes de guerra, genocídios e contra a humanidade.

Para a limpeza étnica, Milosevic chamou o chefe da torcida organizada da esquadra de futebol do Estrela Vermelha de Belgrado, o ultranacionalista Zeliko Raznatovic.

Raznatovic, apelidado Arkan, comandava a violência nos estádios de futebol. Ele fundou a torcida organizada chamada Tigres de Arkan.

Convocado por Milosevic, o sanguinário Arkan organizou uma força paramilitar que, a partir de 1992, iniciou a “depuração étnica”, sinônimo de genocídio.

Os Tigres de Arkan viraram Tigres dos Bálcãs e essa organização paramilitar, que fazia o jogo sujo no lugar do Estado, foi a responsável pelo massacres de milhões de homens, mulheres, idosos e crianças.

Com o acordo de paz de novembro de 1995 (Tratado de Dayton), Arkan caiu na clandestinidade. Dada a condição de “arquivo vivo” e procurado por forças da Nato e serviços secretos ocidentais, Arkan acabou assassinado em 15 de janeiro de 2000, numa suíte de luxo do Hotel Intercontinental de Belgrado.

2. Com a morte de Arkan e o tratado de paz assinado na cidade norte-americana de Dayton, os ultranacionalistas sérvios voltaram à antiga casa, ou seja, à torcida organizada do Estrela Vermelha, que mantém o nome de Tigres de Arkan.

3. Ontem, mais de 2 mil membros da Tigres de Arkan chegaram a Gênova (Itália) com a meta de destruir tudo e mostrar os músculos no estádio Marassi, onde a seleção da Sérvia enfrentaria a da Itália.

A partida durou seis minutos, quando bombas começaram a explodir no gramado e uma bandeira da Albânia (o enclave de Kosovo se declarou independente e a população é formada por albaneses muçulmanos) foi queimada.

Com medo de tragédia, a polícia limitou-se a assistir ao quebra-quebra. Para a polícia italiana, Gênova é sempre lembrada como o local onde ocorreu um furioso ataque policial, quando do encontro do G-8 em 2001, e isso inibe a repressão.

Pano Rápido. Ao entrar em campo, vários jogadores da seleção da Sérvia saudaram os Tigres de Arkan com o braço levantado e a mão a expor os dedos polegar, indicador e médio. Esse é o sinal dos ultranacionalistas, ou seja, alguns jogadores apóiam os ultranacionalistas.

Encapuzados, tatuados e com camisetas com caveiras ou ossos cruzados, os Tigres de Arkan mostraram que estiveram em Gênova para transformar um evento esportivo em palco de exibição da fúria nacionalista, numa Itália que reconheceu a independência de Kosovo.

Wálter Fanganiello Maierovitch

Veja vídeo no Youtube

http://www.youtube.com/watch?v=Zo54gTN3dfY&feature=player_embedded

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Chile: O verdadeiro milagre dos milagres


Texto de Ariel Dorfman (*) (publicado no site www.cartamaior.com.br no dia 05/09/2010)

Uma vida inteira. Creio que os trinta e três mineiros sepultados nas profundidades da mina San José, no Chile, prepararam-se durante toda sua vida para enfrentar o desafio de ficar vários meses debaixo da terra. Ou talvez possa me aventurar a dizer que essa é uma batalha que vêm travando desde antes mesmo de nascer.

A epopéia de homens que descem às trevas da montanha, separam minerais em meio à escuridão e sofrem um acidente que os deixa a mercê daquela escuridão é parte do DNA do Chile, uma parte integral da história do meu país. Foi uma das primeiras coisas que aprendi sobre o Chile, quando cheguei a Santiago, em 1954, aos doze anos de idade.

Abram seus livros até encontrar “El Chiflón del Diablo” – nos pediu um professor de espanhol. Um conto de Baldomero Lillo, publicado em 1904.

Era um relato de uma catástrofe semelhante a esta que, muitas décadas mais tarde, no dia 6 de agosto de 2010, afetaria os mineiros de San José. Ali se encontra uma tragédia que iria se repetir interminavelmente, como a terra devora aqueles que se atrevem a mergulhar em suas entranhas, uma exploração da miséria que, como tantos outros contos clássicos escritos por Baldomero Lillo no início do século XX, todo estudante chileno deve estudar. É claro que aqueles trinta e três mineiros não sabiam quando leram “El Chiflón del Diablo” no colégio que algum dia teriam que viver esse terror na realidade de suas vidas e não na literatura. Não podiam adivinhar que, mais de cem anos depois de Baldomero Lillo imaginar essa ficção, as precárias condições da vida mineira, a exploração humana, os riscos para os trabalhadores, seguiriam essencialmente inalterados.

A mineração forjou o Chile
Os conquistadores que fundaram as primeiras cidades cruzaram desertos alarmantes e vales proibidos em busca de ouro. Depois passou a se apreciar o valor de outros minérios: o ferro, que era fundido em altos fornos, o cobre que ainda hoje é o principal produto de exportação do Chile, e o carvão do Sul, sobre o qual Lillo escreveu e que foi crucial para os barcos que aportavam para se reabastecer a caminho de uma Flórida presa à febre do ouro. De fato, muitas das técnicas utilizadas na Califórnia, a partir de 1849, deveram-se a chilenos que nasceram e se criaram em Copiapó, perto de onde hoje se encontra a mina San José. Milhares e milhares deles partiram aos Estados Unidos com a repentina ilusão de enriquecer.

Mas, de todos os minerais, foi o salitre que, acima de todos os outros, criou o Chile da modernidade. Essas extensões de crosta salina no Atacama, o deserto mais seco do mundo, constituíam a base para o melhor fertilizante conhecido pelo homem e, além disso, serviam para fabricar explosivos. Centenas de pequenas cidades se levantaram nas planícies pedregosas do Pampa “salitrero” e milhões de toneladas foram enviadas a uma Europa atada a uma revolução industrial que necessitava desesperadamente aumentar sua produção agrícola. Algumas décadas mais tarde – como ocorre com tanta freqüência na América Latina e outros lugares tristes do planeta – pensemos na borracha do Amazonas ou na prata de Potosí, diminuiu a demanda de salitre e só restaram alguns povoados fantasmas, uma diáspora de casas raquíticas esparramadas pelo deserto, uma legião de vidas em ruínas.

O nitrato deixou algo mais do que desolação detrás de si. O mundo maravilhou-se com a maneira pela qual os trinta e três mineiros confinados debaixo da terra de San José se organizaram em turnos, criaram uma hierarquia de mando e elaboraram um plano de sobrevivência usando os talentos e recursos acumulados ao longo de uma vida de trabalho tenaz. Eu confesso, em troca, não sentir surpresa alguma. É assim que os trabalhadores chilenos sempre resistiram e sobreviveram aos desafios mais formidáveis. É o legado daqueles que extraíram o salitre em uma situação de solidão e pobreza, daqueles que, na época em que Baldomero Lillo escrevia sobre os tormentos dos mineiros, souberam estabelecer os primeiros sindicatos, os primeiros grupos de leitura, os primeiros jornais da classe operária. Essas lições de unidade, força e ordem e, sim, astúcia, foram passadas de pai para filho e neto: o que todos os homens precisavam saber para superar os desastres que os esperavam em um mundo sem misericórdia.

Por certo, uma sorte piedosa visitou os trinta e três mineiros neste dia de agosto, quando a montanha veio abaixo. Mas não foi a sorte que os manteve com vida. Dentro deles se encontrava o treinamento invisível, o alento de seus ancestrais, que se perpetuaram para murmurar-lhes o que deviam fazer para não morrer uma e outra vez na obscuridade. Houve um milagre em San José, mas por a ênfase tão somente na fortuna benigna é perder de vista o que pode ser talvez o significado mais recôndito do que ocorreu nesse lugar, e que segue ocorrendo, é deixar de lado as perguntas que verdadeiramente importam.

Como é possível que, mais de um século depois de os contos de Baldomero Lillo denunciarem as circunstâncias ferozes em que se trabalhava sob o solo, ainda persistam a mesma insegurança, os mesmos perigos? Quantos novos acidentes como este faltam ocorrer para que se legisle preventivamente e os mineiros possam tocar seu trabalho cotidiano sem arriscar suas vidas de uma forma indecorosa?

Esses trinta e três mineiros são agora heróis nacionais e internacionais, com todo o Chile, e uma boa parte do mundo, acompanhando seu progresso paulatino rumo à luz do dia. Devido a uma dessas coincidências que a história nos oferece de vez em quando, esses homens ficaram presos no preciso momento em que as últimas estatísticas demonstraram, para nossa vergonha, que a pobreza no Chile aumentou drasticamente pela primeira vez desde que Pinochet deixou de ser o ditador do país.
É demasiado sonhar que as tribulações desses homens perturbarão a consciência do Chile, que ajudarão a criar um país onde, dentro de cem anos, os relatos de Baldomero Lillo e a história dos trinta e três mineiros de San José serão coisa do passado, uma relíquia, algo lendário mas já não rotineiro?

Isso sim é que seria um milagre.

(*) Ariel Dorfman é o autor da novela “Americanos: Los Pasos de Murieta” e do livro “Memorias del Desierto”, que explora a vida dos mineiros do norte do Chile.

Tradução: Katarina Peixoto